O
papel da ultra-sonografia na avaliação de gestantes com níveis
elevados de alfa-fetoproteína
Desde a década de 70, quando foram mostrados os benefícios
do rastreamento de defeitos do tubo neural (DTNs) utilizando a dosagem de alfa-fetoproteína
(AFP), muitos pesquisadores demonstraram a sua importância na identificação
de outras condições fetais.
Trata-se de uma glicoproteína produzida
inicialmente pelo saco vitelino e o intestino fetal, e, posteriormente, principalmente
pelo fígado fetal. No feto, os níveis séricos de AFP aumentam
até a 14a ou 15a semanas, e a partir daí diminuem progressivamente.
Durante uma gestação normal, a AFP do sangue fetal chega ao líquido
amniótico (em quantidades da ordem de microgramas) através da
urina fetal, além de suas secreções gastrointestinais e
a transudação pelas membranas fetais (âmnio e placenta)
e o epitélio imaturo. A quantidade de AFP no sangue materno (da ordem
de nanogramas) aumenta gradativamente durante a gestação, atingindo
um pico entre a 30a e 32a semanas, e diminuindo posteriormente. Os níveis
séricos maternos são expressos, em geral, em múltiplos
da mediana (MdM) para padronizar a interpretação entre diferentes
laboratórios.
Uma quantidade excessiva de AFP pode ter acesso
ao sangue materno de várias maneiras, dentre as quais destacam-se os
defeitos cutâneos do feto (como a anencefalia ou a mielomeningocele),
que permitem a passagem de proteínas séricas do feto para o líquido
amniótico e, secundariamente, para o sangue materno.
A dosagem sérica de AFP no sangue materno (AFP-SM)
deve ser realizada entre a 16a e 18a semanas. Quando a AFP-SM encontra-se apenas
discretamente elevada (entre 2,5 e 3,0 MdM) e a idade gestacional é inferior
a 17 semanas, a dosagem deve ser repetida. O conhecimento da idade gestacional
correta é fundamental, tendo em vista que os níveis séricos
de AFP aumentam cerca de 15% por semana durante o período entre a 16a
e 18a semanas. Além disso, os valores de referência dependem do
peso materno, raça e a presença ou não de diabetes (doença
que diminui os níveis de AFP-SM).
Quando os níveis estão elevados, deve-se realizar
uma ultra-sonografia obstétrica pré-parto padrão (“nível
1”) na tentativa de identificar causas de resultados “falso-positivo”
(como a subestimativa clínica da idade gestacional, gestações
múltiplas, óbito fetal e defeitos fetais evidentes). O objetivo
da ultra-sonografia nível 1 é possibilitar uma avaliação
geral do saúde fetal, sendo realizada de acordo com as recomendações
das associações médicas. Entre 20 e 50% dos casos serão
esclarecidos pelos achados desse exame inicial. Nos outros casos, o próximo
passo é a realização de amniocentese para a dosagem de
AFP no líquido amniótico (AFP-LA). Entre as pacientes submetidas
a esse exame, após uma ultra-sonografia nível 1 normal, a maioria
apresentará valores normais de AFP-LA (<2,0 MdM) e exames adicionais
não serão necessários. Quando são encontrados valores
elevados, realiza-se a dosagem de acetilcolinesterase (uma isoenzima importante
na neurotransmissão) no líquido amniótico. Valores elevados
estão associados com a exposição do tecido nervoso (e,
ocasionalmente, com defeitos da parede abdominal). O aumento nos níveis
de AFP e acetilcolinesterase no LA é bastante específico para
a presença de um defeito fetal. Na maioria dos programas de rastreamento,
também é feito o cariótipo a partir da amostra de líquido
amniótico.
Quando a AFP-LA encontra-se elevada, deve-se realizar
um exame ultra-sonográfico fetal dirigido (“nível 2”)
tendo em vista que cerca de 1/3 desses fetos apresentam alterações.
Assim como com a AFP-SM, a razão de probabilidades de um defeito fetal
aumenta proporcionalmente com o valor de AFP-LA.
O exame de nível 2 é realizado para
determinar:
se existe algum defeito fetal (a elevação
de AFP-LA pode ser apenas um resultado falso-positivo);
se presente, qual a natureza da malformação
(DTN versus onfalocele); e
se presente, avaliar a gravidade da anomalia
(o nível medular da mielomeningocele) e pesquisar outras malformações.
A dosagem da AFP-LA é um método
altamente sensível para o diagnóstico ou a exclusão dos
DTNs. O valor preditivo negativo de um exame normal é de aproximadamente
97%, enquanto valores elevados, em associação com um exame da
acetilcolinesterase anormal, permitem uma precisão diagnóstica
acima de 99% nos DTNs. A realização da ultra-sonografia dirigida,
em conjunto com alterações na AFP-LA, também proporciona
uma grande precisão (>99%) na identificação de anomalias
fetais. Entretanto, existe um índice de perda fetal pequeno mas relevante
associado com a realização da amniocentese, relatado em torno
de 1/200 (0,5%), e que não ocorre com a avaliação ultra-sonográfica.
Por esse motivo, as pacientes com valores elevados de AFP-SM, cada vez mais,
optam diretamente pela realização da ultra-sonografia dirigida
após a dosagem de AFP no sangue (ou seja, não realizam a amniocentese).
Essa abordagem vem ganhando espaço nos
últimos anos por dois motivos principais. Em primeiro lugar, a identificação
ultra-sonográfica das prováveis anomalias relacionadas com a elevação
de AFP-SM é mais precisa. Os índices de detecção
de defeitos do tubo neural e da parede abdominal através da ultra-sonografia
são, atualmente, superiores a 90% (vários relatos descrevem um
índice de detecção de 100% para os DTNs).
Estima-se que uma ultra-sonografia normal, detalhada
e completa, pode reduzir o risco de defeitos do tubo neural ou da parede abdominal
baseado na AFP-SM em 95%.
Por último, a realização diretamente
da ultra-sonografia nível 2 evita o risco de perda fetal (discreto, mas
relevante) relacionado à amniocentese. Muitos defendem que a precisão
diagnóstica discretamente superior da amniocentese (em comparação
com a ultra-sonografia) não justifica a sua realização,
tendo em vista o custo elevado e as complicações relacionadas
ao procedimento.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br