Uma gestante de 37 anos, com idade gestacional
de 10 semanas, 6G1P4A, procura atendimento médico para a 1ª consulta
pré-natal. Os antecedentes pessoais mostram abortamentos no 1º trimestre
sem motivo aparente e dois episódios de trombose venosa profunda nos
membros inferiores. Você suspeita que ela possa apresentar a síndrome
do anticorpo antifosfolípide.
1. Como é feito
o diagnóstico de síndrome do anticorpo antifosfolípide?
A síndrome do anticorpo antifosfolípide
(SAF) é uma doença auto-imune caracterizada pela presença
de um grupo heterólogo de anticorpos séricos antifosfolípide.
O diagnóstico exige dois elementos: quadro clínico compatível
e pelo menos um exame laboratorial confirmatório (abaixo). Na ausência
das manifestações clínicas clássicas, exames laboratoriais
positivos não confirmam o diagnóstico. Da mesma forma, achados
clínicos sugestivos de SAF não são válidos sem a
confirmação através de exames laboratoriais. O livedo reticular
é um achado freqüente, sendo considerado por alguns especialistas
um marcador adicional da SAF, embora possa ser encontrado em outras doenças
auto-imunes e/ou do tecido conjuntivo, como o LES.
Para o diagnóstico de SAF, deve-se observar
pelo menos um dos seguintes achados clínicos:
interrupções repetidas da gestação
(definidas como 3 ou mais abortamentos espontâneos sem motivo aparente
durante o 1º trimestre, ou 1 ou mais abortamentos no 2º trimestre,
ou ainda óbito fetal intra-uterino)
trombose sem causa aparente (incluindo trombose
venosa, arterial, acidentes vasculares cerebrais e/ou infarto do miocárdio);
ou
trombocitopenia auto-imune (contagem de plaquetas
inferior a 100.000 células/mL) pelo menos um exame laboratorial confirmatório.
Esses exames têm por objetivo detectar a presença de auto-anticorpos
circulantes, incluindo:
a) o anticoagulante
lúpico (ACL). A associação entre SAF e ACL
foi descrita inicialmente por Nilsson, em 1975. O termo "anticoagulante
lúpico" é inadequado. Em primeiro lugar, embora tenha
sido inicialmente identificado em pacientes com lúpus, não
é um achado específico desses pacientes. Segundo, não
é uma substância com propriedade anticoagulante. In vivo, na
verdade, está associado a eventos trombóticos.
O ACL é um auto-anticorpo da família
dos auto-anticorpos dirigidos contra fosfolípides de membrana (geralmente
da classe das IgG, mas também pode ser IgM) que causa aumento dos
tempos de coagulação dependentes de fosfolípides in
vitro, daí o termo "anticoagulante". Alguns testes
de coagulação podem ser realizados para detectar a presença
desse anticorpo, incluindo o TTPA, o uso do veneno da víbora Russel
(VVR) diluído, o tempo de coagulação plasmática,
o tempo de coagulação com caulim e/ou o tempo de recalcificação.
Esses exames são específicos mas não muito sensíveis.
Todos os exames utilizados para a identificação
do ACL envolvem a adição de uma série de fatores de
coagulação e/ou cofatores (que variam de acordo com o exame)
a uma amostra de tecido fosfolípide de origem animal. Os anticorpos
ACL, quando presentes, ligam-se aos fosfolípides e aumentam o tempo
necessário para promover a coagulação. Quando positivo
(ou seja, o tempo de coagulação é prolongado), dois
novos exames devem ser realizados para a confirmação diagnóstica:
(a) a adição de maiores quantidades de fosfolípides
(geralmente sob a forma de plaquetas, o chamado "teste de neutralização
das plaquetas") para observar se os auto-anticorpos podem ser diluídos
e o tempo de coagulação corrigido, e (b) a adição
de plasma humano normal em uma proporção de 1:1, para descartar
um aumento no tempo de coagulação por deficiência e/ou
disfunção de um fator de coagulação isoladamente
(como o fator Christmas, a doença de von Willebrand ou a hemofilia).
Os resultados dos exames para a pesquisa do ACL podem ser "presente"
ou "ausente", não se pesquisando títulos.
b) auto-anticorpos dirigidos contra
fosfolípides específicos. Inúmeros anticorpos
contra fosfolípides específicos foram identificados, incluindo
anticorpos contra a fosfatidilserina, fosfatidiletanolamina, anti-Ro e anti-La.
Esses anticorpos geralmente podem ser mensurados por exames de ELISA. O
exame mais freqüentemente positivo e solicitado é o anticorpo
anti-cardiolipina (AAC). A cardiolipina é um fosfolípide com
cargas negativas encontrado no coração de bovinos. Trata-se
de um exame semi-quantitativo (ou seja, deve ser interpretado como títulos
baixos, médios ou elevados). Mais recentemente, alguns especialistas
procuraram padronizar o exame: (a) uma abordagem seria descrever os resultados
como múltiplos do valor médio, considerando-se positivos os
valores maiores que 2,5; (b) outra alternativa seria uniformizar o extrato
de fosfolípides e, portanto, o teste de ELISA. Esse método
foi realizado por um grupo em Louisville, Kentucky, e unidades-padrão
foram desenvolvidas (denominadas unidades GPL, para IgG, e unidades MPL,
para IgM). Os títulos devem ser interpretados da seguinte maneira:
Resultado
IgM
(unidades MPL)
IgG (unidades GPL)
Negativo
< 10
< 8
Fracamente positivo
10 - 19
8 - 19
Moderadamente positivo
20 - 55
20 - 80
Fortemente positivo
> 50
> 80
Referências
Alarcon-Segovia D, Perez-Vasquez ME, Villa
AR, Drenkard C, Cabiedes J. Preliminary classification criteria for the antiphospholipid
syndrome within systemic lupus erythematosis. Semin Arthritis Rheum
1992; 21:275-86.
Harris EN. Chan JKH, Asherson RA, et al. Thrombosis,
recurrent fetal loss, and thrombocytopenia: Predictive value of the cardiolipin
antibody syndrome. 1986; 146:2153-6.