Discussao de caso 1 -
Obstetrícia
Uma G3P1102
de 23 anos apresenta-se para sua consulta pré-natal
de rotina na 32ª semana de gestação.
Ela é HIV positivo e está em terapia com combivir
e gostaria de discutir o melhor tipo de parto para seu filho.
É
preferível a cesárea ao parto normal?
Em certas
mulheres, a escolha da cesárea antes do começo
do trabalho ou a ruptura da membrana pode ser benéfica
ao feto. A questão foi avaliada pelo Grupo Internacional
de HIV Perinatal por meio da meta-análise de 15 estudos
de coorte prospectivo (5 europeus e 10 norte-americanos)
realizados entre 1982 e 1996 (1). A taxa de transmissão
de HIV com a cesárea eletiva antes do trabalho de
parto e a ruptura da membrana foi comparada tanto com o
parto normal como a cesárea realizada depois desses
eventos. A análise principal foi limitada a 8.533
pares de mãe-criança para aqueles que o tipo
e as circunstâncias de parto e status do HIV neonatal
eram conhecidos. Neste estudo de coorte, notou-se um efeito
protetor forte de escolha de cesárea (OR, 0,43; 95%
IC, 0,33-0,56). Esses resultados sugerem que a escolha da
cesárea seja feita na 38ª semana de gestação
pode diminuir significativamente a taxa de transmissão
vertical, mas que esse efeito protetor é perdido
se a cesárea for realizada depois do início
do trabalho de parto ou depois da ruptura das membranas.
Análises subseqüentes sugerem que este efeito
protetor está relacionado à carga viral materna
circulante e recomenda que a cesárea eletiva na 38ª
semana de gestação seja oferecida a todas
as parturientes com carga viral > 1,000mL. A taxa de
transmissão vertical em mulheres com uma carga viral
não detectável é estimada em <2%
e não permanece claro se a cesárea eletiva
é capaz de reduzir a taxa de transmissão vertical
futura neste coorte.
Os riscos
da cesárea são maiores em mulheres com infecção
de HIV?
Sim, há
evidências para sugerir que mulheres com HIV positivo
estão em risco maior de morbidade e mortalidade no
parto cirúrgico, se comparadas às mulheres
com HIV negativo, particularmente no Brasil (2). Assim,
o uso da cesárea eletiva em mulheres com infecção
por HIV é benéfico ao feto, mas não
à mãe.
Há
também riscos potenciais para o feto na hora da cesárea.
Desde que os anticorpos antiplaquetários IgG foram
detectados em mulheres com HIV (3), teoricamente a passagem
transplacental com trombocitopenia fetal resultante e/ou
hemorragia intracraniana e/ou sistêmica podem ocorrer.
Além do risco de inoculação, devem-se
evitar procedimentos envolvendo a perfuração
da pele fetal ou do epitélio (como "funipuncture"
e amostragem do couro cabeludo), se possível para
diminuir o risco de hemorragia fetal.
Uma
mulher com HIV positivo pode tomar uma anestesia epidural
no trabalho de parto?
Ao contemplar
a anestesia local, a avaliação inicial deveria
avaliar de perto o estado dos sistemas hematológicos
e neurológicos. Embora haja um risco teórico
de exacerbação de uma doença neurológica
pré-existente, os dados atuais confirmam a segurança
da anestesia local em mulheres com HIV positivo na ausência
de doença neurológica aberta (4). Deve ocorrer
uma dor de cabeça depois de uma técnica local,
deveria considerar um diagnóstico diferencial completo.
Se a dor-de-cabeça parece ser devido à perfuração
dural, as terapias iniciais devem ser conservadoras: descanso
em cama, analgésico, hidratação oral
e produtos com cafeína. Se essa administração
falhar, pode-se considerar utilizar uma placa de sangue
epidural. Enquanto as implicações infecciosas
teóricas de uma placa de sangue foram aumentadas
(5,6) e alternativas como o uso de salina extradural ou
sangue com HIV negativo heterólogo foram sugeridos
(7), deve-se lembrar que a detecção do HIV
no sistema nervoso central ocorre cedo no curso da doença.
Três relatórios perceberam a ausência
de eventos adversos seguindo a placa de sangue em pacientes
com HIV positivo, embora eles representam coletivamente
apenas 13 pacientes (8,9).
Referências:
1. The International Perinatal HIV Group. The mode of delivery
and the risk of vertical transmission of human immunodeficiency
virus type 1. N Engl J Med 1999; 340: 977-87.
2. Sempri AE, Castagna C, Ravizza M, et al. The incidence
of complications after cesarean section in 156 HIV-positive
women. AIDS 1995; 9:913-7.
3. Glantz JC, Roberts DJ. Pregnancy complicated by thrombocytopenia
secondary to human immunodeficiency virus infection. Obstet
Gynecol 1994; 83:825-7.
4. Hughes SC, Dailey PA, Landers D, et al. Parturients infected
with human immunodeficiency virus and regional anesthesia.
Anesthesiology 1995; 82:32-37.
5. Frame WA, Lichtman MW. Blood patch in the HIV-positive
patient (letter). Anesthesiology 1990; 73:1297.
6. Bevacqua BK, Slucky AV. Epidural blood patch in a patient
with HIV infection (letter). Anesthesiology 1991; 74:952-3.
7. Gibbons JJ. Post dural puncture headache in the HIV positive
patient (letter). Anesthesiology 1991; 74:953.
8. Tom DJ, Gulevich SJ, Shapiro HM, et al. Epidural blood
patch in the HIV-positive patient. Review of clinical experience.
Anesthesiology 1992; 76:943-7.
9. Fassoulaki A, Desmonts JM. Prolonged neuromuscular blockade
after a single bolus dose of vecuronium in patients with
acquired immunodeficiency syndrome. Anesthesiology 1994;
80:457-9.
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