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Avaliação da primeira convulsão

A convulsão é uma súbita mudança de comportamento em conseqüência de uma disfunção cerebral.

  • Convulsões epilépticas são resultado de uma hipersincronização de redes neurais no córtex cerebral. A epilepsia é caracterizada por uma série de convulsões epilépticas recorrentes devido à uma alteração cerebral genética ou adquirida. Aproximadamente 1 a 2 % da população tem epilepsia.
  • Convulsões não-epilépticas (CNE) são súbitas mudanças de comportamento que se assemelham às convulsões epilépticas mas não estão associadas com as mudanças neuropatológicas e neurofisiológicas típicas que caracterizam as convulsões epilépticas.

As CNE são subdivididas em dois grandes grupos: fisiológicas e psicogênicas. As CNE fisiológicas são caracterizadas por uma súbita alteração do da função neuronal devido à um desequilíbrio metabólico ou hipoxemia. Causas de CNE fisiológicas incluem arritmias cardíacas, síncope e hipoglicemia grave. As CNE psicogênicas ocorrem provavelmente por conflitos psicológicos estressantes ou traumas emocionais de grande magnitude e são mais difíceis de serem reconhecidas e diagnosticadas que as CNE fisiológicas.

Entretanto, elas raramente ocorrem em pacientes sem um passado psiquiátrico significante.

O tratamento farmacológico das convulsões epilépticas visa o restabelecimento da função neurológica normal, ao passo que o tratamento para as CNE é específico para a condição que deflagrou a convulsão. Assim, o primeiro objetivo durante a avaliação da primeira convulsão de um paciente é determinar se ela resultou de um processo sistêmico tratável ou de uma disfunção intrínseca do sistema nervoso central e, se for o caso, a natureza da patologia cerebral de base. Essa avaliação vai determinar a probabilidade de este paciente ter outras convulsões e suportar um possível início de terapia anticonvulsivante.

O diagnóstico diferencial e as características clínicas das convulsões bem como a avaliação da primeira convulsão são revistos neste artigo. Mesmo que o status epilepticus convulsivo ou não-convulsivo possa ser a apresentação inicial da epilepsia, não há discussão específica sobre o assunto já que é facilmente reconhecível em sua apresentação clínica.

Estudos Diagnósticos

Screening Laboratorial
Avaliações laboratoriais que são apropriadas para a avaliação de uma primeir
a convulsão incluem glicemia, cálcio, magnésio, estudos hematológicos, testes de função renal a pesquisa de intoxicações. Sob circunstâncias apropriadas, outros testes de valor são o de tolerância à glicose e exames para porfiría. Algumas alterações laboratoriais como acidose e leucocitose podem ocorrer como resultado da convulsão.

Punção Lombar
A punção lombar é essencial se a apresentação sugere um processo infeccioso agudo que envolve o sistema nervoso central ou se o paciente tem antecedente de neoplasia que sabidamente pode levar à metástases nas meninges. Em outras circunstâncias o exame pode não ser útil pois uma convulsão prolongada pode causar pleiocitose no líquido cefalorraquidiano. A punção lombar deve ser realizada somente após a exclusão de massas intracranianas por meio de exames radiológicos adequados.

Eletroencefalografia
O eletroencefalograma (EEG) é uma prova essencial na avaliação de convulsões epilépticas. Se anormal, o EEG pode confirmar o diagnóstico de convulsão epiléptica e indicar se o paciente tem crises parciais ou generalizadas. Se o EEG for realizado com privação de sono e outras medidas provocativas forem usadas como hiperventilação e estímulo luminoso intermitente, aumenta-se a sensibilidade do exame. Um EEG anormal que confirma um diagnóstico clínico de epilepsia aumenta substancialmente a chance do paciente apresentar uma segunda convulsão nos dois anos seguintes. Entretanto, um EEG normal não exclui o diagnóstico de epilepsia e um EEG positivo pode não ser específico. Como um exemplo, certos tipos de anormalidades no EEG são vistas em pacientes com enxaqueca e ou em associação com medicações.

Neuroimagem
Um estudo radiológico deve ser feito para excluir anormalidades estruturais do cérebro se a primeira convulsão do paciente não foi uma CNE fisiológica. A ressonância nuclear magnética (RNM) é preferível à tomografia computadorizada (TC) para identificar lesões específicas como displasias corticais, infartos ou tumores. Entretanto, uma TC de crânio é adequada para excluir uma massa, hemorragia ou um grande infarto em situações em que a RNM não está disponível ou está contra-indicada como em portadores de marca-passo, clipes de aneurisma não-compatíveis ou claustrofobia grave. O valor da avaliação radiológica em adultos com o primeiro episódio convulsivo foi demonstrado em uma revisão retrospectiva de 148 pacientes estudados nos primeiros trinta dias subseqüentes à convulsão. A causa da convulsão foi estabelecida em 71 pacientes (48%); uma lesão estrutural foi identificada em 55 (37%) e 16 (11%) tinham convulsões metabólicas. Os achados de TC foram concordantes com o exame neurológico em 82% dos casos.

Entretanto, lesões estruturais (incluindo três tumores) foram achadas à TC em 14 pacientes (15%) com achados não-focais e em 12 (22%) em pacientes com anormalidades generalizadas ao EEG.

Uma RNM cerebral é útil em crianças que apresentam seu primeiro episódio convulsivo para identificar anormalidades congênitas como doenças de migração neuronal ou mal-formações arterio-venosas. Em adultos jovens e de meia-idade achados comuns são esclerose mesial temporal, seqüela de trauma craniano, anormalidades congênitas, tumores cerebrais e lesões vasculares. Nos idosos, RNM geralmente mostram infartos cerebrais, degenerações cerebrais ou neoplasias. No entanto, até 50% dos pacientes, apesar da idade, têm exames radiológicos normais.

Referência:
Ramirez-Lassepas, M, Cipolle, RJ, Morillo, LR, Gumnit, RJ. Value of computed tomographic scan in the evaluation of adult patients after their first seizure. Ann Neurol 1984; 15:536.
Bortz, JJ. Nonepileptic seizures: Issues in differential diagnosis and treatment. CNS Spectrums 1997; 2:20.

Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br


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