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Cistatina c

O meio mais preciso para avaliação da função renal, particularmente em pacientes pediátricos, geriátricos e diabéticos

Introdução

A dosagem de creatinina sérica é um exame útil na avaliação da função renal, pois o seu valor aumenta na medida em que diminui a velocidade de filtração glomerular (VFG). Grosseiramente, reduções da filtração glomerular de 50% correspondem a uma duplicação do nível sérico de creatinina. Este aumento é gradual, não sendo aplicável à reduções agudas da filtração glomerular. Por ser um produto metabólico muscular, a dosaqem de creatinina sofre influências não-renais, entre as quais a quantidade de massa muscular. Adicionalmente, não possui a sensibilidade adequada para detectar precocemente pequenos declínios na VFG.

A depuração (“clearance”) de creatinina, medida em mililitros por minuto, permite um diagnóstico mais precoce de alteração da função renal, quando comparado à avaliação dos níveis séricos de creatinina. Entretanto, este exame necessita de controle rigoroso dos tempos e da coleta de urina, dosagens simultâneas no soro e na urina e, a correção da superfície corporal do paciente pela superfície corporal padrão.

Cistatina C – precisão e precocidade

A Cistatina C é uma proteína não-glicosilada, de baixo peso molecular (13,36 Kda), inibidora da proteinase da cistina, que é produzida pela maioria das células nucleadas e está presente em todos os líquidos biológicos em concentrações fisiologicamente relevantes. Nas células, está envolvida no processamento de pró-hormônios e no catabolismo do colágeno. Sua função de inibir a protease tecidual apresenta importância no estudo da doença de Kawasaki, da aterosclerose e de aneurismas de aorta, patologias nas quais encontra-se uma deficiência de Cistatina C.

No entanto, atualmente, a maior importância da determinação sérica ou plasmática da Cistatina C, decorre de sua alta sensibilidade na avaliação do índice de filtração glomerular. A concentração sérica média normal desta proteína é de 0,7 mg/L e aumenta proporcionalmente com a diminuição da velocidade de filtração glomerular. Esta alta sensibilidade deve-se ao fato de a Cistatina C ser produzida de forma constante, sua produção não ser influenciada por processos inflamatórios, dieta ou massa muscular e não ocorrerem variações com o sexo do paciente. Estudos mostram que os níveis séricos de cistatina C começam a aumentar quando a VFG está em torno de 88 ml/min, enquanto que a concentração sérica de creatinina, somente aumenta, quando a VFG está abaixo de 75 ml/min.

Devido ao seu baixo peso molecular e à carga positiva, a Cistatina C é livremente filtrada pelo glomérulo renal e reabsorvida e metabolizada no túbulo renal proximal, não ocorrendo secreção renal ou extra-renal. Logo, a determinação da Cistatina C sérica reflete exclusivamente a filtração glomerular e seu aumento no soro significa uma redução dessa taxa de filtração. Adicionalmente, a dosagem e a interpretação podem ser feitas a partir de uma única dosagem aleatória.

Metodologia

A Cistatina C é quantificada por ensaio imunonefelométrico.

Significado clínico

Conforme a “National Kidney Foundation”, EUA, mais de 20.000.000 de americanos apresentam doença renal ou do trato urinário anualmente. A avaliação da filtração glomerular é fundamental no diagnóstico de uma possível patologia glomerular, no uso de medicamentos que dependem da filtração glomerular para sua excreção e em doenças renais crônicas, para facilitar a conduta apropriada, conforme a função renal.

A Cistatina C pode ser usada para o diagnóstico precoce de alterações da função renal. Os níveis de Cistatina C tem demonstrado uma melhor correlação com a velocidade de filtração glomerular (VFG), que a creatinina sérica. A Cistatina C proporciona um método eficaz para avaliação da função renal em pacientes pediátricos porque seu nível diminui no período neonatal até níveis observados em adultos no primeiro ano de vida. A creatinina, por outro lado, atinge níveis observados em adultos apenas após a puberdade, devido ao aumento da massa muscular com o crescimento, contribuindo assim para uma diminuição na sua sensibilidade como um marcador da VFG. A Cistatina C apresenta menos interferências no processo analítico como pela bilirrubina e hemoglobina, como é o caso da creatinina, evitando problemas observados em amostras pediátricas, nos casos de icterícia neonatal e hemólise durante a coleta da amostra.

Nos pacientes transplantados, a Cistatina C é um marcador acurado da função renal, demonstrando ser também mais sensível, em comparação à creatinina sérica, na detecção de reduções agudas da filtração glomerular. Em uma pequena percentagem de casos, a cistatina C pode subestimar a VFG, mas não apresenta o problema de falso negativo, observado com a creatinina sérica. Uma atenção especial deve ocorrer em pacientes transplantados em uso de glicocorticóide como imunossupressor, pois uma influência dose dependente é sugerida em vários estudos.

O uso de altas doses de glicocorticóides pode induzir o aumento da Cistatina C sérica, independentemente da taxa de filtração glomerular, devendo, nesses casos, a dosagem da Cistatina C ser avaliada criteriosamente, já que ainda não existe, na literatura, um valor de referência para esse grupo de pacientes.

Outras condições onde estudos mostram a maior utilidade da cistatina C em comparação com a creatinina sérica ou utilidade equivalente com a depuração da creatinina, são na cirrose, quimioterapia, doenças autoimunes e nos idosos. Em pacientes diabéticos, a microalbuminúria é o primeiro sinal de comprometimento renal que aparece, antes que a VFG apresente deterioração. A cistatina C apresenta uma sensibilidade e especificidade na detecção da microalbuminúria acima de 90%, podendo ser usada como um marcador precoce.

Em um estudo comparativo realizado em nosso laboratório, com 52 pacientes, entre Cistatina C, creatinina sérica e clearence de creatinina, observou-se ótima correlação entre eles.

Valores de referência

 
IDADE
Níveis esperados
Pediátrico
0 - 3 meses 0,8 – 2,3 mg/L
4 – 12 meses 0,7 – 1,5 mg/L
1- 17 anos 0,5 – 1,3 mg/L
Adultos
> 18 anos 0,5 – 1,0 mg/L

REFERÊNCIAS
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