A celulite
é uma infecção de partes moles que se estende para o tecido
subcutâneo, sendo geralmente tratada com antibioticoterapia sistêmica.
Entretanto, na maioria das vezes, a identificação do agente etiológico
não é possível. Portanto, opta-se pelo tratamento empírico
com antibióticos eficazes contra os estreptococos do grupo A e o Staphylococcus
aureus. A aspiração com agulha de líquido das margens
da região infectada é realizada em alguns pacientes, mas isola
o patógeno em menos de 20% dos casos. A hemocultura é um método
mais comumente empregado para identificar o microorganismo, mas a positividade
é baixa e os resultados na maioria das vezes não modificam a conduta
terapêutica.
Perl e colaboradores
realizaram uma revisão retrospectiva com o objetivo de avaliar a utilidade
e a relação custo-benefício da coleta de hemoculturas em
pacientes com celulite. Os investigadores analisaram os prontuários de
todos os pacientes com diagnóstico de celulite que foram admitidos no
setor de emergência do hospital. Os pacientes com celulite na face e aqueles
com outros focos infecciosos foram excluídos do estudo. Os registros
do laboratório de microbiologia do hospital também foram analisados
para identificar o número de hemoculturas solicitadas nesses pacientes,
bem como o número de culturas positivas que isolaram o agente etiológico
responsável pela infecção. Após a identificação
dos pacientes com hemoculturas positivas, realizou-se uma revisão mais
detalhada dos casos para identificar as características clínicas
desse grupo de pacientes.
Durante um
período de três anos, 757 adultos receberam o diagnóstico
de celulite. Hemoculturas foram colhidas em 553 pacientes (73%), sendo coletadas
710 amostras. Em alguns casos, mais que uma hemocultura foi solicitada. As amostras
foram inoculadas em meios de cultura aeróbicos e anaeróbicos.
Um patógeno específico foi identificado em apenas 11 pacientes
(2%). Por outro lado, acredita-se que houve contaminação da amostra
em 20 pacientes (3,6%). Apenas para comparação, o laboratório
do hospital analisou cerca de 14.000 hemoculturas de outros pacientes no mesmo
período, isolando-se o patógeno em cerca de 11% dos casos.
Entre os pacientes
com hemoculturas positivas, em cinco casos foram isolados estreptococos do grupo
G, estreptococos do grupo A em três, S. aureus em um, Vibrio vulnificus
em outro e Morganella morganii em mais um. Várias evidências clínicas
apontavam para bacteremia nesses pacientes, em comparação com
aqueles nos quais o exame foi negativo, incluindo idade acima de 45 anos, menor
duração dos sintomas antes do exame físico, maior incidência
de febre, temperatura maior ou igual a 38,5°C na admissão e contagem
inicial de leucócitos no sangue maior que 13.300/mm³.
Nessa instituição,
cada hemocultura custou $50, acrescido de mais $50 para a pesquisa de sensibilidade
aos antimicrobianos. O custo total associado aos exames negativos e com contaminação
foi de $34.950.
Os autores
concluem que, na maioria dos pacientes com celulite, o índice de hemoculturas
positivas é muito baixo e o exame apresenta uma relação
custo-benefício desfavorável. Os pacientes mais idosos com quadro
agudo, febre alta e leucocitose significativa, além dos imunodeprimidos,
podem ser exceções.
Referência
Perl B, et al. Cost-effectiveness of blood cultures for adult patients with
cellulitis. Clin Infect Dis December 1999; 29:1483-8.