Estabelecer o diagnóstico
de tuberculose (TB) em crianças pode ser uma tarefa difícil. O Mycobacterium
tuberculosis pode ser encontrado em menos de 50 por cento das crianças infectadas,
e o diagnóstico baseia-se na ligação da criança com um adulto com diagnóstico
confirmado de tuberculose. A tríade utilizada inclui (1) a exposição a um caso
bacilífero, (2) um teste tuberculínico positivo e (3) alterações na radiografia
de tórax ou no exame físico. Starke faz uma revisão sobre as manifestações clínicas
e o diagnóstico de tuberculose em crianças.
A infecção ocorre quando
o M. tuberculosis está presente na sua forma latente. O teste cutâneo é positivo,
mas a criança é assintomática. O exame físico é normal, e a radiografia de tórax
pode ser normal ou mostrar um granuloma. A doença, por sua vez, ocorre quando
o organismo se replica rapidamente e existem alterações radiográficas ou no
exame físico. A doença tuberculosa em crianças pode se desenvolver em semanas
ou meses após a infecção inicial. Os casos de tuberculose pulmonar na infância
são geralmente detectados através da investigação dos contactantes de adultos
ou adolescentes com infecção ativa, realizada pelos departamentos de saúde.
A infecção tuberculosa
deve ser tratada com uma droga, enquanto a doença é tratada com esquemas envolvendo
múltiplas drogas. A distinção entre infecção e doença pode ser difícil, uma
vez que ambas constituem um continuum.
Um teste tuberculínico positivo,
utilizando 0,1 mL (5TU) do derivado protéico purificado, é representado por
enduração que se desenvolve geralmente em 48 a 72 horas após a aplicação. A
enduração observada após 72 horas é importante e deve ser registrada como o
resultado do exame. Até 10 por cento das crianças com diagnóstico confirmado
através de cultura do bacilo não apresentam positividade no teste tuberculínico
no momento da avaliação, mas tornam-se reativas após o início do tratamento.
Um grande número de crianças com meningite tuberculosa ou a forma miliar da
doença têm exame inicial negativo (anérgicas). Quando a suspeita de TB é importante,
qualquer reação no teste tuberculínico deve ser considerada sugestiva, apesar
de não ser diagnóstica.
As alterações radiográficas
em crianças com a doença são causadas pela combinação de um infiltrado parenquimatoso
e alterações mecânicas provocadas pela obstrução das vias aéreas. Essas alterações
podem ocorrem em qualquer lobo, podendo ainda ser multilobares. Os achados mais
comuns são a adenopatia hilar ou mediastinal isolada, a hiperinsuflação segmentar
ou atelectasia, consolidação alveolar, densificações intersticiais, derrame
pleural ou cavitação. A tomografia computadorizada (TC) não tem um papel relevante
na avaliação de crianças assintomáticas infectadas com radiografia de tórax
normal. Em pacientes com alterações na radiografia de tórax, a TC pode evidenciar
o acometimento endobrônquico, invasão pericárdica, cavitações precoces ou o
aumento de linfonodos. A meningite tuberculosa é identificada na TC ou na ressonância
magnética, demonstrando hidrocefalia comunicante, infiltrado basilar e áreas
de infarto, especialmente no tálamo e na distribuição da artéria cerebral média.
As crianças raramente produzem
amostras de escarro para avaliação e, tipicamente, apresentam pequena carga
de bacilos. Essa situação dificulta a identificação da micobactéria pelo esfregaço.
A coloração rápida com ácido do lavado gástrico coletado pela manhã também apresenta
valor diagnóstico reduzido. O melhor material para cultura é o lavado gástrico
colhido pela manhã que contém secreções respiratórias endobrônquicas. A broncoscopia
pode ser útil para a demonstração de lesões endobrônquicas ou de obstrução das
vias aéreas. Quando a "tríade" mencionada acima está presente, a confirmação
diagnóstica através de cultura é desnecessária. Os testes de sensibilidade podem
ser realizados em material obtido do caso inicial. A amplificação do ácido nucléico
(AAN) é um nova técnica que permite a amplificação rápida das espécies de micobactéria.
Estão disponíveis sistemas que utilizam tanto o DNA como o RNA, mas apenas os
que empregam o DNA foram utilizados nos estudos pediátricos publicados. A especificidade
é maior no escarro quando existe positividade na coloração rápida com ácido.
Os resultados utilizando o lavado gástrico em crianças têm sido desapontadores.
O alto índice de resultado falso-positivo sugere que a AAN deve ser usada apenas
quando suspeita-se da doença devido a alterações na radiografia de tórax.
Referência:
Starke JR. Diagnosis of tuberculosis in children. Pediatr Infect Dis J November
2000;19:1095-6.