Medicina Nuclear - Importância e Indicações
A contribuição da
Medicina Nuclear para a avaliação do seu paciente é muito importante. É o único
método de diagnóstico que fornece informações anátomo-funcionais.
A Medicina Nuclear difere
dos demais métodos de diagnóstico por imagem em muitos aspectos, como a utilização
de radionuclídeos e radiofármacos, que permitem uma avaliação do comportamento
funcional do órgão de interesse. Além de ser método de diagnóstico, ela também
é opção de tratamento para algumas doenças, incluindo câncer e metástases.
A medicina nuclear é, portanto,
um método diagnóstico complementar à avaliação clínica de seu paciente. Outros
métodos de diagnóstico como a Tomografia computadorizada (TC), Ressonância magnética
(RM) e a Ultra-sonografia (US) produzem imagens de alta resolução espacial e
contraste, que permitem examinar o aspecto anatômico do órgão de interesse.
Porém, eles não fornecem, com sensibilidade e precisão, dados funcionais sobre
a fisiopatologia do órgão alvo.
A vantagem da medicina nuclear
baseia-se na capacidade de demonstrar o estado anátomo-funcional de diversos
órgãos e sistemas. Sua principal limitação, ainda, é apresentar uma resolução
espacial inferior à dos demais métodos de diagnóstico por imagem. Avanços tecnológicos
recentes (SPECT / SPECT-PET), fusão de imagens e sistemas híbridos (CT-PET /
CT-SPECT) são soluções recentes, em desenvolvimento, para superar essas limitações.
A medicina nuclear descreve
a biodistribuição corpórea dos radiotraçadores/radiofármacos administrados ao
paciente. Radiotraçadores são moléculas radioativas que seguem o curso semelhante
ao de moléculas naturais que compõem nossos órgãos e sistemas. Eles agem da
mesma forma que a substância natural, ou seja, podem ser captados, produzidos
ou secretados pelo órgão, não interferindo na fisiologia normal desse órgão.
As imagens obtidas após
a administração do radiotraçador mostram a sua distribuição de forma natural
(nos exames sem alteração) ou anormal (nos exames alterados). Qualquer modificação
da fisiologia normal ou da anatomia do órgão alvo, quando presente, será detectada.
Por exemplo, a molécula determinada como pertecnetato - 99mTc (Tecnécio), uma
vez administrada ao corpo humano, comporta-se como o íon Iodo (Iodeto). Depois,
essa molécula (radiotraçador), é seqüestrada pela glândula tireóide (da mesma
forma como o íon iodeto). A glândula tireóide irá concentrar o pertecnetato-99mTc
(radiotraçador) de forma semelhante ao iodeto. Por meio da medicina nuclear
é possível observar a biodistribuição do pertecnetato-99mTc e determinar a morfologia
tireoideana, sua localização, além de identificar o comportamento funcional
das células tireoideanas (normal, hipocaptante ou hipercaptante).
Os estudos radiológicos
convencionais utilizam a radiação ionizante na forma de transmissão. A medicina
nuclear baseia-se na identificação do órgão alvo, utilizando radiação ionizante
na forma de emissão (visualiza o corpo/órgão alvo, de dentro para fora). O radiotraçador
pode estar acoplado a uma substância (fármaco), compondo um elemento denominado
de radiofármaco. As informações diagnósticas são obtidas a partir da observação
da distribuição do radiofármaco no corpo, ao longo do tempo.
Esse acoplamento/ligação
do radionuclídeo aos vários compostos químicos se comporta de forma semelhante
aos compostos naturais encontrados no corpo. Por exemplo, radiotraçadores utilizados
para estudar os ossos mimetizam o fosfato; os de vias biliares mimetizam a bilirrubina;
os do coração mimetizam o potássio (bomba de sódio-potássio) e, os do rim mimetizam
a inulina. Radiofármacos, como outras drogas não radioativas, são excretados
através dos tratos gastro-intestinal e genito-urinário ou outros fluidos corpóreos.
As reações adversas são extremamente raras e muito menos comuns do que as reações
aos contrastes iodados utilizados na TC.
Nem todos os elementos
radioativos disponíveis na natureza podem ser utilizados pela medicina nuclear.
Entre os parâmetros que determinam os radionuclídeos que podem ser utilizados
para fins médicos, incluem-se, principalmente, a meia vida, o tipo de radiação
produzida e a energia emitida pela radiação. Os principais radionuclídeos utilizados
pela medicina nuclear incluem: Iodo (I-131 / I-123), Índio (In-111), Gálio (Ga-67),
Tecnécio (Tc-99m), Tálio (Tl-201) e Samário (Sm-153).
De todos, o mais utilizado
é o Tecnécio. Os tipos de radiação mais úteis na medicina nuclear são os Gama
e Beta. Os elementos radioativos que emitem partículas do tipo Beta são utilizados
com finalidade terapêutica. A terapia representa uma porção menor, porém de
grande importância desta especialidade. A maior parte da medicina nuclear apresenta
finalidade diagnóstica e se baseia na utilização de radionuclídeos emissores
de partículas Gama. Imagens obtidas por raios-X são imagens de transmissão (os
raios -X gerados por uma fonte externa, tubo de raios-X atravessam os tecidos
do paciente, impregnam uma placa e produzem a imagem). Para cada imagem adicional
são necessárias novas exposições do paciente à radiação. Imagens de medicina
nuclear são obtidas por emissão (os raios Gama são emitidos a partir do radionuclídeo
administrado ao paciente que se concentrou no órgão alvo), atravessam o corpo
e são captadas pela Gama câmara. Imagens adicionais não requerem doses extras
de material radioativo, apenas um maior tempo de obtenção.
Contra indicações
Como na medicina nuclear
a radiação é emitida de dentro do paciente, o estudo não é aconselhável nas
gestantes. Nos estudos com raios-X, o feto pode ser protegido da radiação colocando-se
blindagens de chumbo sobre o abdome da gestante. Isto não é possível na medicina
nuclear, pois não se pode controlar o radiofármaco na corrente sangüínea. Portanto,
o exame deve ser protelado para após o término da gestação.
Lactentes apresentam problema
semelhante, pois alguns tipos de radiofármacos apresentam excreção no leite
materno. É aconselhável, nesses casos, suspender a lactação por um certo tempo,
após a realização do exame. O tempo é determinado pela meia-vida do elemento
radiativo.
Principais indicações
A avaliação diagnóstica
e acompanhamento terapêutico de uma grande variedade de doenças podem ser realizados
pela medicina nuclear. De acordo com o órgão alvo ou sistema a ser avaliado,
existem diversos tipos de radiotraçadores e radiofármacos disponíveis com indicação
precisa ou que podem ser adaptados ao caso.
Vamos abordar aqui, de
forma sucinta, as principais indicações diagnósticas e os radiotraçadores/radiofármacos
destinados ao procedimento, de acordo com cada órgão alvo/sistema .
Sistema cardiovascular
1. Estudos de perfusão
miocárdica - Avaliação da perfusão das paredes do ventrículo esquerdo,
função contrátil e cinética ventricular e cálculos de fração de ejeção são obtidas
pelos estudos de perfusão miocárdica com Sestamibi - 99mTc.
A avaliação da presença
de músculo miocárdico viável, músculo "stunned/hibernante" ou de necrose miocárdica
é obtida pelos estudos de viabilidade miocárdica com Tálio-201. A necrose miocárdica
na fase precoce também pode ser avaliada através da cintilografia do miocárdio
com Pirofosfato-99mTc.
2. A ventriculografia
radioisotópica com hemácias marcadas é o padrão ouro para determinação
de contratilidade, motilidade, débito cardíaco, volume sistólico e diastólico
e as frações de ejeção dos ventrículos. A ventriculografia radioisotópica é
um excelente método para o acompanhamento de pacientes pós-infarto, derivação,
doenças valvares com disfunção ventricular, cardiomiopatias e cardiotoxicidade
por quimioterapia (Doxorrubicina). Como é um método de baixa variabilidade inter-observador
(não é operador dependente) torna-se ideal para avaliação de doenças cardíacas
de longa duração e também de pacientes pediátricos.
Sistema respiratório
Os estudos de inalação
pulmonar (DTPA-99mTc) e perfusão pulmonar (MAA-99mTc) permitem avaliar a distribuição
da aeração e da perfusão de ambos os pulmões (avaliação segmentar). A análise
comparativa de ambos os estudos apresenta comprovada eficácia na determinação
probabilística de embolia pulmonar. Também pode determinar a capacidade pulmonar
residual de pacientes com indicação de ressecção pulmonar.
Sistema músculo esquelético
Os fosfonatos (MDP/HDP)
são os agentes mais comuns na avaliação do sistema ósteo-articular. Estes estudos
podem ser divididos em cintilografias ósseas de corpo inteiro e cintilografias
ósseas trifásicas.
As doenças ósseas são as
principais indicações de avaliação do sistema ósteo-articular pela medicina
nuclear (atividade osteoblástica) de origem benigna e maligna (primária e/ou
secundária).
1. Cintilografia óssea
de corpo inteiro: avalia o esqueleto por inteiro em busca de áreas suspeitas
de doença óssea em atividade. É o principal método diagnóstico para investigar
a presença de áreas de infiltração óssea metastática.
2. Cintilografia
óssea trifásica: o estudo ósseo divide-se em fase de fluxo sangüíneo
regional e permeabilidade capilar da área suspeita e metabolismo ósseo (tardio),
quanto à presença de doenças ósseas do tipo osteomielite, artrite séptica, fraturas,
necrose avascular, infecção x soltura de prótese, como também osteossarcomas.
Sistema digestivo
Além de ser um excelente
método para avaliação de esvaziamento esofágico e gástrico, pesquisa de refluxo
gastro-esofágico + aspiração pulmonar, principalmente em pacientes pediátricos,
a medicina nuclear contribui para o diagnóstico de diversas patologias abdominais.
A patologia e o órgão alvo determinam qual o melhor agente a ser administrado
ao paciente.
1. Disida-99mTc -
Determina a função hepatocítica e a perviedade das vias biliares (intra
e extra-hepáticas), diagnostica a presença de colecistites (aguda ou crônica),
obstruções pós-cirúrgicas do duto hepático comum e colédoco, além de ser o principal
método para diferenciar hepatite neonatal x atresia de vias biliares.
2. Microcolóide-99mTc
- Determina a função mesenquimal do fígado, baço e medula. A avaliação
de hepatoesplenomegalias, tumores hepáticos benignos e metastáticos (hiperplasia
nodular focal), cirrose hepática, hipertensão portal e doença de Budd-Chiari,
são as indicações mais comuns de cintilografia com microcolóide.
3. Hemácias marcadas
- Além de serem o melhor e mais preciso agente para determinar a presença
de hemangiomas hepáticos, as hemácias marcadas são utilizadas nas pesquisas
de sangramento digestivo.
4. Pertecnetato -
99mTc - Nos pacientes pediátricos a causa mais comum de sangramento
digestivo baixo é a presença do divertículo de Meckel. O pertecnetato confirma
a existência de mucosa gástrica em local ectópico.
Sistema urinário
1. DMSA-99mTc -
A cintilografia renal avalia a função tubular (cortical) renal, sendo o melhor
método para identificar a presença de cicatriz renal pós-pielonefrite, permitindo
também, obter a função renal diferencial.
2. DTPA-99mTc -
É o estudo renal dinâmico/renograma, que avalia a função glomerular individual
de ambos os rins, fornecendo também informações quanto ao fluxo sangüíneo renal,
morfologia renal e a dinâmica das vias urinárias (pelve renal, ureteres e bexiga).
É o melhor método para avaliação das vias urinárias, hipertensão de origem renovascular
e de transplante renal (trombose x NTA/RCA).
3. Pertecnetato -
99mTc - Além de avaliar a presença de torção testicular x necrose, permite
obter imagens dinâmicas da bexiga e identificar a presença de refluxo vésico-ureteral
(cistocintilografia).
Sistema endócrino
1. Pertecnetato-99mTc,
Iodo-131 e Iodo-123 - Avaliam a morfologia da glândula tireoideana quanto à
presença de nódulos (quente/frio), presença de tireóide ectópica, tumor e metástases
tireoideanas.
2. Captação tireoideana
(IODO-131) - Determina se a glândula encontra-se hipo, normo ou hipercaptante
(doenças de Graves/Plummer ou tireoidite).
3. Iodo-131, Iodo-123 e
Sestamibi-99mTc - São utilizados na avaliação pós-cirúrgica da tireóide (imagens
do corpo inteiro), para determinar a presença de restos tireoideanos e/ou áreas
de infiltração metastática e para auxiliar no cálculo da dose de radioiodo a
ser tomada pelo paciente.
Sistema nervoso central
1-ECD-99mTc / HMPAO-99mTc
Avalia o fluxo sangüíneo cerebral global e fluxo sangüíneo regional. Mostra
a distribuição da perfusão (função/metabolismo) cortical cerebral e cerebelar.
As indicações mais comuns são avaliar focos epileptogênicos em atividade, síndromes
demenciais e reserva de fluxo / função em pacientes com isquemia (AVC) e pesquisa
de morte encefálica.
2-DTPA-99mTc -
Uma vez injetado no líquor (punção lombar), permite avaliar a dinâmica liqüórica
quanto à presença de hidrocefalia de pressão normal e/ou presença de fístula
liqüórica.
Oncologia
1. Gálio-67 -
Os estudos com Gálio-67 são extremamente úteis quanto à detecção de linfomas
(Hodgkin e não-Hodgkin), estadiamento (acompanhamento terapêutico) e presença
de recidiva x necrose (pós-tratamento).
O Gálio-67 também pode ser
utilizado em pacientes com suspeita de processo inflamatório/infeccioso em atividade
(pneumonites, miocardites e osteomielites), ou pacientes com febre de origem
desconhecida.
2. Sestamibi-99mTc
/ Tálio-201 - São radiotraçadores indiretos (metabólicos) de atividade
tumoral. São indicados principalmente para diferenciar recidiva tumoral (pós-tratamento)
x necrose.
Importância e principais indicações terapêuticas
Adicionalmente à capacidade
de diagnóstico de anormalidades, a medicina nuclear pode ser utilizada na terapia
de certas doenças. As indicações mais comuns são as disfunções benignas da tireóide,
como doença de Graves / Plummer ou mesmo, mais recentemente, o bócio multinodular
atóxico de grande volume, câncer de tireóide e alívio da dor óssea de origem
metastática. Assim como no diagnóstico, a terapia baseia-se na utilização de
radiofármacos/radiotraçadores. Os radiotraçadores utilizados para terapia tendem
a se concentrar numa determinada parte e não se difundir pelo corpo. Por exemplo,
iodo-radioativo na tireóide e o fosfato nos ossos. Isto é importante, pois é
o órgão alvo que deve ser tratado e não o resto do corpo.
Quando se avalia elementos
radioativos para uso terapêutico devem se selecionar os elementos que emitem
partículas Beta. Essas partículas são radioativas, mas não como os raios-X ou
Gama (as partículas Beta interagem na matéria). A interação ocorre devido à
transferência da energia para o tecido, causando a morte localizada deste tecido.
Entretanto, elas não são capazes de atravessar grandes distâncias (no tecido
humano atravessam poucos centímetros de tecido). Essa propriedade de produzir
uma dose elevada sobre uma área confinada e de curto alcance torna a partícula
Beta extremamente útil na medicina nuclear.
Indicações mais comuns
1. Iodo-131 - Radioiodoterapia
para doenças tireoideanas (Graves / Plummer) e carcinomas tireoideanos (restos
tireoideanos pós-tireoidectomia total e/ou infiltração metastática).
2. Samário-153 -
tratamento da dor óssea de origem metastática.
Conclusão
A Medicina Nuclear apresenta
propriedades únicas comprovadas, demonstrando sua verdadeira utilidade no diagnóstico,
estadiamento, valor prognóstico e conduta terapêutica de diversas doenças mantendo
ainda seu custo-benefício.
Este resumo procura demonstrar
de que forma a medicina nuclear, cujo principio é essencialmente fisiológico,
poderá participar no arsenal propedêutico das mais diversas patologias.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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