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Helicobacter pylori –
Detecção pelo teste respiratório
Helicobacter
pylori x Dispepsia
A
Helicobacter pylori foi inicialmente detectada através
de biópsia gástrica por Marshall e Warren,
em 1983 (1). Sua presença na mucosa gástrica
está relacionada à gastrite crônica
e é um importante fator no desenvolvimento de úlceras
gástricas e duodenais (2). Apesar de apenas uma parte
dos pacientes infectados desenvolverem manifestações
clínicas, a bactéria é encontrada na
mucosa gástrica de quase todos os indivíduos
com úlceras duodenais e cerca de 80% dos pacientes
com úlcera gástrica não associada ao
uso de antiinflamatórios. A recorrência da
úlcera após 1 ano é reduzida de 60-100%
para menos de 10% quando o tratamento convencional é
associado à erradicação da Helicobacter
pylori. A infecção também está
associada ao adenocarcinoma e linfoma gástrico (3),
apesar destas doenças acometerem menos de 1% dos
indivíduos infectados. A erradicação
da H pylori pode reverter a gastrite atrófica (4),
mas seu papel na prevenção do desenvolvimento
de tumores é controverso.
A infecção por Helicobacter pylori provavelmente
ocorra na infância, por transmissão fecal-oral
ou gástrica-oral, portanto havendo a influência
de fatores de higiene e sanitários que justificam
sua alta prevalência nos países em desenvolvimento
(de 30 a 90%, sendo próxima a 60% na América
Latina) (5). Apesar da infecção provavelmente
ocorrer durante a infância, não há uma
associação clara entre a infecção
por H pylori e dispepsia em crianças. Por este motivo,
a pesquisa de H pylori não é indicada rotineiramente
para crianças, exceto em casos graves de úlcera
gástrica ou duodenal, que poderiam justificar o tratamento
e erradicação da bactéria. Mesmo nestes
casos, é mais provável a indicação
de métodos invasivos (endoscopia com biópsia),
ainda mais quando se considera a pouca experiência
de literatura no uso de técnicas não invasivas
para crianças abaixo de 2 anos (6).
Métodos
de detecção da Helicobacter pylori
A Helicobacter
pylori pode ser detectada por meio de técnicas invasivas,
partindo da retirada de uma amostra tecidual por endoscopia.
A pesquisa da bactéria no tecido pode ser feita por
histologia (bactérias curvilíneas ou em S
na superfície mucosa), cultura (tecnicamente complicada)
ou pelo teste da urease. O teste da urease é baseado
na capacidade da bactéria produzir e secretar a enzima
responsável pela hidrólise da uréia
para amônia e CO2.
A digestão
da uréia é também a base para os métodos
não invasivos, particularmente para o Teste Respiratório
com Uréia (TRU). Outros testes não invasivos
incluem a sorologia e a detecção de antígenos
nas fezes. A sorologia pode ser uma opção
ao teste respiratório de uréia no diagnóstico
inicial de H pylori nos locais com alta prevalência
da infecção (acima de 90%), dependendo também
do custo regional dos exames. Além destas técnicas
mais disseminadas, também são descritos métodos
baseados na detecção de anticorpos na urina
ou na saliva, PCR (polymerase chain reaction) ou imunofluorescência.
Quando
pesquisar
Recentes consensos
de gastroenterologia apontam para a necessidade de uma maior
investigação e tratamento da infecção
na atenção primária a pacientes dispépticos
(7). A pesquisa de H pylori é indicada no atendimento
primário de adultos abaixo de 45 anos, com dispepsia
persistente. Nesta investigação estariam excluídos
os pacientes com predomínio de sintomas de refluxo
gastro-esofágico, em uso de antiinflamatórios
não-hormonais ou aqueles que apresentem sinais e
sintomas de alarme para carcinoma (perda de peso, disfagia,
vômito recorrente, sangramento ou anemia, alterações
de exame físico, mal-absorção ou doenças
concomitantes com possível envolvimento digestivo).
Os pacientes com sinais ou sintomas de alarme deveriam ser
encaminhados para o especialista e provavelmente submetidos
a endoscopia. O consenso latino-americano igualmente sugere
que os pacientes com idade acima de 30-40 anos e dispepsia
com duração superior a 3 meses sejam encaminhados
para endoscopia digestiva alta (8)
A pesquisa recomendada para os pacientes na rede primária
é o teste respiratório de uréia ou
a pesquisa de antígenos nas fezes, devendo ser considerados
nesta decisão a prevalência de câncer
gástrico na população, a prevalência
de infecção por H pylori (em locais com alta
prevalência pode ser considerada a pesquisa inicial
por sorologia) e a disponibilidade e custo regional da endoscopia.
Tratamento
e Seguimento
Quando confirmada
a infecção, recomenda-se tratamento de pacientes
com (9):
- úlcera péptica (ativa ou não) –
nível de evidência 1
- linfoma gástrico (MALT) de baixo grau – nível
de evidência 2
- gastrite atrófica – nível de evidência
2
- após a ressecção de câncer
gástrico – nível de evidência
3
- parentes em 1o grau de pacientes com câncer gástrico
– nível de evidência 3
- pacientes que desejem ser tratados após consulta
médica – nível de evidência 3
O tratamento
é uma opção controversa no tratamento
de pacientes infectados e que apresentem dispepsia funcional,
por ser observada melhora em cerca de 10% destes pacientes
(similar a outras modalidades terapêuticas). O consenso
também considerou que a erradicação
da bactéria não está associada ao desenvolvimento
ou piora de quadro de refluxo gastro-esofágico. O
tratamento pode ajudar a reduzir a incidência de úlcera
péptica quando realizado antes da administração
de antiinflamatórios, mas não auxilia a resolução
de úlceras nos pacientes em tratamento anti-secretor
que continuem a receber antiinflamatórios.
Após
o intervalo de pelo menos 4 semanas do tratamento (e pelo
menos 1 semana sem o uso de medicações anti-secretoras)
recomenda-se confirmar a erradicação da bactéria.
O principal método empregado no controle de erradicação
é o teste respiratório da uréia, com
o uso alternativo da pesquisa de antígenos nas fezes.
Recomenda-se controle por biópsia se a endoscopia
já estiver clinicamente indicada (ex: úlcera
duodenal complicada, úlcera gástrica, linfoma
MALT, ressecção local de câncer gástrico).
Não se recomenda a pesquisa sorológica para
o controle terapêutico.
Teste
Respiratório com Uréia
O Teste Respiratório
com Uréia (TRU) é o método mais recomendado
na literatura para a pesquisa não invasiva de Helicobacter
pylori. O método apresenta sensibilidade de 90 a
98% e especificidade de 92 a 100% na detecção
da H pylori (10). O TRU é baseado na administração
por via oral de uréia marcada com carbono-13 (13C)
ou com carbono-14 (14C). Quando a bactéria está
presente no estômago, há hidrólise da
uréia e liberação de CO2. O CO2 formado
será absorvido pela circulação e exalado
pelo paciente, podendo ser detectado por espectrometria
de massa (quando contém 13C) ou por medidas da radição
(quando contém 14C). A detecção do
carbono-14 apresenta menor custo e é mais disponível
que a detecção do carbono-13, principalmente
a partir do desenvolvimento de sistemas simplificados de
leitura (11). A dose de radiação envolvida
para o paciente é mínima (1,4 a 3 ?Sv, 70
vezes menos que uma radiografia de tórax) (12).
Antes da realização
do estudo é necessário preparo, com a suspensão
de antibióticos e bismuto por 1 mês, sucralfato
e inibidores da bomba de prótons por 2 semanas, bloqueadores
H2 por 24 horas. Além do preparo inadequado, resultado
falso-negativo pode ocorrer após gastrectomia. Resultados
falso-positivos são descritos em casos de acloridria
ou gastrectomia prévia, devido à colonização
por outras bactérias urease-positivas.
No dia do
exame o paciente deve estar em jejum de pelo menos 6 horas.
O paciente ingere a cápsula contendo a uréia
marcada com carbono-14 e, após intervalo de 10 a
30 minutos, respira em um sistema de coleta do CO2 durante
aproximadamente 4 minutos. A radioatividade retida no sistema
é analisada em um equipamento específico,
e indica a metabolização da uréia marcada
(na presença de Helicobacter pylori há quebra
da uréia marcada e eliminação do CO2-14C).
Fonte:
Dr. Marcelo Tatit Sapienza - CRM: 69.553
Referência:
(1) Marshall
BJ, Warren JR. Unidentified curved bacilli in the stomach
of patients with gastritis and peptic ulceration. Lancet
1984; 1(8390):1311-1315.
(2) Versalovic J. Helicobacter pylori.
Pathology and diagnostic strategies. Am J Clin Pathol 2003;
119(3):403-412.
(3) Ebert MP, Schandl L, Malfertheiner
P. Helicobacter pylori infection and molecular changes in
gastric carcinogenesis. J Gastroenterol 2002; 37 Suppl 13:45-49.
(4) Sung JJ, Lin SR, Ching JY, Zhou LY,
To KF, Wang RT et al. Atrophy and intestinal metaplasia
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