A anemia ferropriva,
definida como uma diminuição na concentração de
hemoglobina decorrente da redução da reserva de ferro no organismo,
é considerada como um dos maiores problemas nutricionais, não
só dos países em desenvolvimento, como também nos países
desenvolvidos. Estima-se que 2,150 bilhões de pessoas, quase 40% da população
mundial, apresentam carência de ferro ou níveis baixos de hemoglobina.
Teoricamente, a carência de ferro ocorre
no organismo de forma gradual e progressiva, considerando-se três estágios
até que a anemia se manifeste. O primeiro estágio, depleção
de ferro, afeta os depósitos e representa um período de maior
vulnerabilidade em relação ao balanço marginal de ferro,
podendo progredir até uma deficiência mais grave, com conseqüências
funcionais. O segundo estágio, deficiência de ferro, é
referido como uma eritropoiese ferro-deficiente e caracteriza-se por alterações
bioquímicas que refletem a insuficiência de ferro para a produção
normal de hemoglobina e outros compostos férricos, ainda que a concentração
de hemoglobina não esteja reduzida. O terceiro e último estágio,
anemia ferropriva, caracteriza-se pela diminuição dos
níveis de hemoglobina, com prejuízos funcionais ao organismo,
tanto mais graves quanto maior for essa redução.
A população de risco à deficiência
de ferro são os lactentes, pré-escolares, escolares, adolescentes
e gestantes, independente da classe social e estado nutricional, com maior tendência
nas classes de menor nível sócio-econômico.
Os principais fatores etiológicos que determinam
a anemia ferropriva são:
Baixa reserva de ferro neonatal - quase todo
o conteúdo de ferro do organismo de um neonato a termo é obtido
no último trimestre de vida intra-uterina e utilizado como reserva
nos primeiros quatro meses de vida. Em situações como prematuridade,
gemelaridade e anemia materna grave não há reserva adequada
podendo ocorrer anemia ferropriva nos primeiros meses de vida.
Aporte insuficiente de ferro e baixa biodisponibilidade
- pode ocorrer devido a ingestão insuficiente de ferro (dieta pobre
em ferro) ou em decorrência de uma reduzida absorção intestinal
que é influenciada por fatores fisiológicos (síndromes
de má absorção, pH intraluminal) ou nutricionais (substâncias
quelantes do ferro).
Aumento da necessidade diária - há
aumento dos requerimentos orgânicos nos períodos de crescimento
acelerado como em prematuros, lactentes e adolescentes.
Aumento das perdas – hemorragias agudas
ou crônicas comuns em parasitoses intestinais, neoplasias de intestinos,
leva a perda e, consequentemente, maior necessidade de ferro.
Os principais sintomas da deficiência de ferro estão
relacionados com o comprometimento do transporte de oxigênio para os tecidos,
devido a redução na concentração de hemoglobina.
No entanto, outras anormalidades bioquímicas podem acontecer, já
que o ferro participa de reações enzimáticas do organismo.
O quadro clínico mais comum são a palidez cutâneo-mucosa,
astenia, fadiga, distúrbio alimentar (pica), pele seca, glossite, estomatite
angular, redução do crescimento, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor,
repercussões no sistema imune com maior susceptibilidade à infecções,
além das deficiências cognitivas e comportamentais.
Existem diversos parâmetros hematológicos e
bioquímicos que refletem os três estágios da carência
de ferro e podem ser utilizados isoladamente ou associados no diagnóstico
do estado nutricional de ferro em indivíduos ou populações.
Quando utilizados isoladamente, nenhum deles é suficientemente sensível
ou específico.
A investigação laboratorial da anemia
deve começar por procedimentos simples. A dosagem da concentração
de hemoglobina é o teste laboratorial mais útil na triagem de
anemia ferropriva. O limite para se diferenciar estados anêmicos dos normais
é geralmente considerado como o valor médio da hemoglobina ou
do hematócrito para cada idade e sexo. A tabela 1 apresenta os valores
de referência de hemoglobina para indivíduos, de acordo com sexo
e faixa etária.
Tabela 1 – Valores
de referência de hemoglobina para indivíduos, de acordo com sexo
e faixa etária.
| Idade/sexo
|
Hemoglobina
(g/dl) |
Lactentes (5 meses
a 2 anos)
|
> 10,5 |
| Pré-escolares
(2-6 anos) |
> 11,5 |
Escolares (6-12
anos)
|
> 11,5 |
Adolescentes (12-18
anos)
Sexo feminino
Sexo masculino
|
> 12,0
> 13,0 |
Adultos (18-49
anos)
Sexo feminino
Sexo masculino
|
> 12,0
> 13,5 |
| Gestantes |
> 11,0 |
| Fonte: Nathan,
DG & Oski FA, 1993 |
Os índices
hematimétricos também auxiliam na investigação das
anemias. Na anemia por deficiência de ferro é comum a microcitose
(diminuição do volume corpuscular médio - VCM), bem como
a hipocromia (redução da hemoglobina corpuscular média
- HCM). Como a avaliação do tamanho das hemácias é
uma chave para o diagnóstico de anemia, o VCM é o mais importante
dos índices hematimétricos. VCM abaixo de 80 fL (fentolitros)
parece ser um indicador confiável da redução de síntese
de hemoglobina. Outro índice obtido é a concentração
de hemoglobina corpuscular média (CHCM) que mais tardiamente se torna
anormal na deficiência de ferro. A tabela 2 mostra os valores de referência
dos índices hematimétricos.
Tabela 2 - Valores de referência
dos índices hematimétricos
| Idade/Sexo |
Índices
hematimétricos |
| VCM
(fL) |
HCM
(pg) |
CHCM
(g/dL) |
Lactentes (5 meses a 2 anos)
|
> 70
|
> 23
|
> 30 |
Pré-escolares (2-6 anos)
|
>75
|
> 24
|
> 31 |
Escolares (6-12 anos)
|
>77
|
> 25
|
> 31 |
Adolescentes (12-18 anos)
Sexo feminino
Sexo masculino
|
> 78
> 78
|
> 25
> 25 |
> 31
> 31 |
Adultos (18-49 anos)
Sexo feminino
Sexo masculino |
> 80
> 80 |
> 26
> 26 |
> 31
> 31 |
| Fonte:
Nathan, DG & Oski FA, 1993 |
O nível de ferritina sérica (FS), que reflete
os estoques de ferro dos tecidos, é um teste muito confiável,
pois só sofre depressão na deficiência de ferro. Valores
reduzidos na concentração de FS são um forte indicador
de depleção de ferro, e valores elevados podem ser observados
na presença de infecções, neoplasias, doenças hepáticas,
leucemias, ingestão de álcool e hipertireoidismo.
Baseando-se somente na concentração de FS,
não existe consenso sobre o ponto de corte para caracterizar o indivíduo
com depleção de ferro. Alguns estudos têm adotado valores
inferiores a 10, 12 ou 20 mg/L. Na gestação, tem-se freqüentemente
admitido o ponto de corte de 10 mg/L para caracterizar a depleção
de ferro. Cada mg/L de FS representa cerca de 8 a 10 mg de ferro armazenado.
A dosagem de ferro sérico (FeS) está habitualmente
reduzida na deficiência de ferro (FeS < 13 umol/L). A capacidade total
de ligação do ferro (CTLF), que também é utilizada
para avaliar o ferro circulante, aumenta na deficiência de ferro mas diminui
na inflamação, fornecendo assim evidência para diferenciação
das duas situações. Porém, deve ser avaliada criteriosamente,
uma vez que pode se encontrar dentro da faixa de normalidade quando ambas, inflamação
e deficiência, coexistem. A CTLF pode aumentar antes mesmo das reservas
de ferro estarem completamente exauridas, refletindo depleção
das reservas; no entanto, é menos sensível que a FS. A faixa normal
de CTLF varia entre 45 e 70 mmol/L (250 - 390 mg/dL).
Em função da reduzida especificidade e sensibilidade
da concentração do FeS e da CTLF, costuma-se considerar a relação
entre as duas medidas (FeS/CTLF), ou seja, a saturação da transferrina
(ST). Esse índice também possui algumas limitações,
incluindo a não especificidade para diagnosticar a deficiência
de ferro, modificando-se na presença de infecção.
A precisão da ST é limitada, pois depende
das variações nas concentrações do FeS e da CTLF.
Na gestação, a ST encontra-se reduzida, uma vez que a CTLF está
comumente aumentada e o FeS reduzido. A ST é de grande valor no diagnóstico
diferencial de talassemia e da anemia ferropriva. Ambas as patologias apresentam
uma microcitose e hipocromia, mas a ST é invariavelmente elevada na talassemia.
Uma redução na ST de 15% a 16% indica suprimento insuficiente
de ferro para a produção de células vermelhas; por sua
vez, a elevação de 20% a 25% é útil para excluir
a deficiência de ferro.
A dosagem de protoporfirina eritrocitária
também pode ser realizada, pois há um acúmulo de protoporfirina
nos eritrócitos quando o ferro é insuficiente para formar o heme.
Grande parte dessa protoporfirina está ligada ao zinco, formando um complexo
chamado de zinco-protoporfirina. O ponto de corte usualmente utilizado para
a zinco-protoporfirina, acima do qual caracterizaria uma deficiência de
ferro, é 60 mmol/mol de heme, variando entre 40 e 70 mmol/mol de heme.
A tabela 3 ilustra os valores de referência de ferro sérico, saturação
da transferrina, capacidade total de ligação do ferro e zinco-protoporfirina.
Tabela 3 - Valores de referência
de ferro sérico (FeS), capacidade total de ligação do ferro
(CTLF), saturação da transferrina (ST) e zinco-protoporfirina
| Parâmetros
diagnósticos |
Valores
de referência |
FeS
|
>= 13 mmol/L |
CTLF
|
Entre 45 e 70 mmol/L |
ST
|
Entre 20% a 25% |
| Zinco-protoporfirina |
Até 60 mmol/mol
de Heme |
| Fonte:
Paiva, A.A., 2000 |
Não existe parâmetro ou combinação
ótima para o diagnóstico do estado nutricional de ferro. A escolha
do parâmetro a ser utilizado depende de diversos fatores, entre os quais
algumas características inerentes ao indivíduo ou grupo populacional
(idade; gestação), a prevalência e severidade da deficiência
de ferro, a incidência de doenças inflamatórias e infecciosas
e a freqüência de doenças hematológicas (hemoglobinopatias,
leucemias etc). Além disso, não podem ser desconsiderados fatores
tais como o volume da amostra de sangue requerido, o custo, a complexidade da
metodologia e a suscetibilidade a erros laboratoriais.
O tratamento da anemia ferropriva é realizado geralmente
pela administração de sais de ferro, preferencialmente por via
oral. O mais utilizado destes sais é o sulfato ferroso (3-5mg/kg/dia)
que representa a intervenção de resposta mais imediata. A médio
prazo, o uso de alimentos enriquecidos com ferro e de uma dieta adequada estão
entre as principais recomendações para reduzir o referido estado
de carência.
Referência
bibliográficas
BUZINA-SUBOTICANEC,
K. et al. Effects of iron suplementation on iron nutrition status and cognitive
functions in children. Food na Nutrition Bulletin. 1998, 19(4):298-306.
CHAUD, M.V. & FREITAS, O. Compostos alternativos
para o tratamento e/ou prevenção da anemia ferropriva. Cadernos
de Nutrição. 1994, 8:1-9.
NATHAN, DG & OSKI FA, Hematology of infancy
and childhood. 4ªed. Philadelphia, 1993.
PAPPAS, D. E. & CHENG, T.I. Iron deficiency
anaemia. Pediatrics in Review. 1998,19(9):1-3.
PAIVA, A. A. et al. Parâmetros para avaliação
do estado nutricional de ferro. Revista de Saúde Pública.
2000,34(4): 1-11.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br