O screening ultra-sonográfico no câncer de mama
Introdução
A situação do câncer de
mama no Brasil segundo dados estimados pelo INCA (Instituto Nacional do Câncer)
para o ano de 1999 foi de 31.200 casos novos, com taxa bruta de 39,58 tumores
diagnosticados por 100.000 mulheres. Há alguns anos vem ocupando o primeiro
lugar em ocorrência dentre os cânceres que acometem a mulher. Seguindo o câncer
de mama em frequência temos o câncer do colo uterino e o de pele (Abreu e cols.,1999).
Apesar do dramático impacto destes números, e também conscientes de que a grande
maioria dos casos diagnósticados são em estádios não iniciais, falta-nos programas
de rastreamento realmente efetivos visando a detecção precoce das formas subclínicas
- lesões não palpáveis. Com isso as chances de cura, bem como a instituição
de terapia cirúrgica menos agressiva fica cada vez mais distante.
O método de escolha dos
programas de rastreamento é a mamografia (MG) convencional. Todavia, o exame
de imagem ideal para o diagnóstico precoce ainda não foi perfeitamente desenvolvido.
A mortalidade pode ser reduzida em aproximadamente 30% com a utilização de programas
de screening. Apesar disso, em particular nos países em desenvolvimento, muitas
mulheres não fazem sequer uma mamografia em qualquer período de sua vida. As
razões de tal fato são complexas, percorrendo desde obstáculos culturais até
econômicos relacionados ao paciente, ao prestador da assistência e às instituições,
públicas ou privadas.
A mamografia tem taxas de
10 a 22% de falsos negativos nas pacientes acima de 30 anos. Estes valores podem
ser mais altos, atingindo 30 a 35¨% nas mulheres jovens (Osuch e cols.,1998).
O falso negativo ocorre usualmente nas mamas densas. Mais diagnósticos são feitos
quando dispomos de um arsenal propedêutico maior, analisando os dados clínicos,
imagenológicos e cito/histológico, estes ultímos obtidos por procedimentos minimamente
invasivos (Punção Aspirativa com Agulha Fina, Core Biopsy).
A ultrassonografia, juntamente
com a mamografia, é hoje instrumento fundamental e indispensável no diagnóstico
em mastologia. Com o aperfeiçoamento da tecnologia existente é possível que
o US venha preencher algumas lacunas da MG. À princípio o ultra-som ( US ) está
indicado como exame complementar de toda a mamografia alterada e nas pacientes
jovens quando presente algum sinal ou queixa clínica. Nas mamografias classificadas
como BI-RADS 0 ( Breast Imaging Reporting and Data System ), ou seja, inconclusivas
pela acentuada densidade mamária, impõe-se uma complementação deste exame que
na sequência seria a ultrassonografia.
A Mamografia nos Programas de Detecção Precoce
Os programas de detecção
precoce para câncer de mama tiveram seu início na década de 60. O primeiro deles
denominado Health Insurance Plan (HIP), iniciado em New York mantém-se
até hoje. O segundo programa em importância envolveu 28 centros nos Estados
Unidos e denominou-se Breast Cancer Detection Demonstration Project (BCDDP).
Em 1970 os dados destes estudos evidenciaram que a detecção inicial de câncer
de mama por screening em mulheres assintomáticas pôde reduzir as taxas de óbito
por esta neoplasia. (Dood GD, 1988).
Desde os primeiros programas
diversas questões ficaram a ser respondidas à respeito do número de incidências
em cada exame mamográfico, da dose de irradiação que a paciente se expõe, da
associação de outros métodos diagnósticos e da faixa etária da população envolvida
nestes programas. Atualmente os projetos de detecção precoce devem constituir-se
de mamógrafos capazes de submeter cada paciente a dose de 0.25 rads ou menos
em duas incidências. A American Cancer Society e o American College
of Radiology recomendaram em 1989 a realização de uma mamografia inicial
entre 35 e 39 anos, entre 39 e 49 anos realizar um exame a cada dois anos que
passa a ser anual à partir dos 50.
Hindle e cols. em 1999,
verificando os achados mamográficos de 1908 mulheres assintomáticas com idade
menor ou igual a 35 anos, avaliadas entre 1992 e 1995 não encontraram benefício
no encontro de tumores iniciais subclínicos. O US National Institutes of
Health em 1997 orientou que na quarta década de vida a decisão à respeito
do intervalo ideal para se realizar a mamografia de screening, anual ou bianual,
deve basear-se na presença de fatores de risco para câncer de mama identificáveis.
Se a paciente pertence a grupos familiares de risco, com parentes de primeiro
grau com câncer de mama em idade precoce, esta triagem deve iniciar quando elas
atingirem idade 10 anos menor do que a idade que a parente mais precocemente
afetada tinha quando foi diagnosticada a doença pela primeira vez (Hayes e cols.,
1998). Nas pacientes com idade acima de 50 anos o rastreio deve ser sempre anual.
O Screening Ultrassonográfico
O screening do câncer
de mama pelo US apresenta limitações principalmente pela pouca capacidade de
detectar microcalcificações. O US, pouco mais do que a MG, depende para a sua
utilização como método de rastreamento de aparelhos de alta resolução, melhor
conhecimento técnico profissional na realização do exame, bem como maior tempo
dispendido pelo médico. A falta de uma documentação ecográfica eficiente que
pudesse ser interpretada por outros observadores é mais um fator limitante.
O Europeau Group for
Breast Cancer Screening em 1998, revendo o resultado de diversos programas
de detecção precoce que utilizaram o US concluiu : "The use of ultrasound
in population screening of asymptomatic women is associated with unacceptably
high rates of both false positive and false negative outcomes. At present there
is little evidence to support the use of ultrasound in population breast cancer
screening at any age". Todavia, em populações com elevado risco para câncer
de mama hereditário, normalmente jovens com mamas densas e incluídas precocemente
em programas de screening, a utilização da ultra-sonografia com este fim se
justifica.(Fígura 1 e 2).
Kopans e cols. em 1980 iniciaram
um estudo prospectivo triplo-cego comparando o exame clínico, a mamografia,
e a ultra-sonografia mamária, num sistema desenvolvido que permitiria avaliar
o papel do US como screening. Em 1140 mulheres examinadas, assintomáticas ou
não, 127 cânceres foram diagnosticados em 125 mamas. O ultrasonografista não
tinha conhecimento dos dados encontrados nos outros dois exames. O US deixou
de fazer diagnóstico em 46 (36%) dos cânceres. Em 94 (8%) mulheres identificou-se
lesões suspeitas somente pelo US, embora apenas 9 destas tinham câncer. Neste
estudo, que foi um dos primeiros a utilizar o US no rastreamento, as taxas de
falso positivo e falso negativos foram inaceitáveis.
Cilotti e cols. em 1997,
testaram o ultra-som com transdutores de alta frequência ( 7.5 - 13 MHz ) no
diagnóstico de primeira ou segunda linha em lesões mamárias não palpáveis. Deste
estudo participaram 89 mulheres com lesões diagnosticadas previamente pela mamografia.
Elas foram examinadas por dois ultrasonografistas denominados I e II. O I tinha
conhecimento dos dados encontrados na mamografia, e o II não. A sensibilidade
do US foi de 83% o nas mãos do examinador I e de 35% no II.Cilotti
e cols. concluíram que o US pode ser um instrumento importante de diagnóstico
num segundo tempo do screening e nos casos falso-positivos da mamografia.
Kolb e cols., em 1998 levantaram
retrospectivamente os dados de 11.200 mulheres submetidas a um screening com
mamografia mais exame clínico. Destas, 3.626 tinham mamas densas com descrição
de normalidade em ambos os exames. Todas foram então encaminhadas para um rastreio
ultra-sonográfico que identificou 11 cânceres (prevalência de 0.3 %). Embora
a prevalência seja pequena não justificando sua reprodução em grande escala
para populações assintomáticas, o US mostrou-se útil nas mamas densas, onde
os índices falso negativos da mamografia e exame clínico são maiores, podendo
elevar o grau de confiabilidade do screening. Isto tem particular importância
nos programas de detecção precoce direcionados a populações de risco.
Elmore e cols. em 1998,
num levantamento retrospectivo de 10 anos que acompanhou por screening mamográfico
9.762 mulheres, encontrou 23,8% de resultados falso positivos, e o risco acumulativo
após 10 MG chegava a 49.1%. Segundo este estudo, para cada 100 dolares gastos
com o screening mamográfico um adicional de 33 dolares foi necessário para avaliar
os resultados falso positivos. A utilização do US nestes programas de rastreamento
poderia acrescentar dados ao exame mamográfico, reduzindo deste modo as incidências
complementares, compressões e magnificações radiológicas, diminuíndo também
o número de pacientes selecionadas ao seguimento semestral e às biópsias.
Warner e cols., em 1999,
estudando o benefício da adição da Ressonãncia Nuclear Magnética (RNM), MG,
US e exame clínico das mamas no diagnóstico de lesões não palpáveis registrou
que o último conseguiu detectar dois cânceres, a MG dois, o US três e a RNM
seis, com valor preditivo positivo de 67%, 67%, 30% e 46% respectivamente. A
RNM e o US mostraram, portanto, um número maior de falsos positivos, todavia
com uma sensibilidade maior.
Por ora a utilização do
US isoladamente em programas de rastreio de câncer de mama não tem suporte científico,
entretanto, com o desenvolvimento de transdutores de alta frequência e treinamento
de radiologistas é provável que isto um dia possa ocorrer. Além disso, estudos
randomizados em larga escalas serão necessários para mostrar que este screening
reduz a mortalidade por câncer de mama.
As Microcalficações Agrupadas e o Ultra-Som
Como expomos anteriormente,
uma das razões pela qual não é possível utilizar o US em programas de detecção
precoce do câncer de mama é sua baixa capacidade em detectar microcalcificações
agrupadas. A mamografia continua sendo o único método seguro que pode detectar
microcalcificações sugestivas de câncer. As microcalcificações suspeitas para
malignidade podem ter a forma granular ou linear e são formadas à partir de
restos celulares de necrose intra-ductal. Cerca de 15 a 18% das microcalcificações
agrupadas estão associadas a alguma manisfestação neoplásica maligna.
O encontro de microcalcificações
ao US não é difícil quando dispomos da mamografia prévia para nos direcionar
na procura das mesmas. As microcalcificações agrupadas, pleomórficas e lineares
- mais suspeitas para malignidade -, apresentam maior densidade de cristais
de cálcio, além de produzirem uma reação de desmoplasia que confere uma imagem
ecográfica de ecos estriados de maior brilho dispostos num fundo escuro.( Fígura
3 e 4 ) Isto facilita seu encontro ao US principalmente se utilizarmos transdutores
lineares de alta frequência e grey scale.
A demonstração de microcalcificações
pelo US de alta resolução sem o conhecimento prévio pelo observador dos dados
da mamográfia tem sido motivo de alguns trabalhos ( Fígura 5 ). A capacidade
de detecção vai de 30 a 59% de acordo com os estudos. A capacidade de visualização
ecográfica aumento quando as microcalcificações são pleomórficas, lineares e
em número maior que 20 por agrupamento. Embora os resultados ainda sejam intimistas,
com reduzido número de pacientes incluídas nos estudos, os dados que vêm sendo
adquiridos são promissores.
Ao desenvolvermos pesquisa
na identificação de microcalficações pelo US, o campo de sua aplicação não se
restringiria apenas ao screening, mas se extenderia também a seu uso na localização
de procedimentos minimamente invasivos de diagnóstico histológico ( Core Biopsy
ou Mamotomia ), bem como no mapeamento pré-operatório de lesões com microcalficações.
Cleverley e cols., em 1997
verificaram a possibilidade da localização pré-operatória de microcalcificações
agrupadas pela ecografia. O estudo prospectivo incluiu 70 pacientes com microcalficações
suspeitas pela mamografia na ausência de qualquer lesão de massa ou distorção
do parênquima associada. Utilizando-se de US de alta frequência o sítio aproximado
das microcalficações foi determinado e o local marcado na sua projeção cutânea
com caneta de tinta permanente. A área foi excisada cirurgicamente e radiografada
no trans-operatório, confirmando sucesso da exérese completa das mesmas em 88%
dos casos. O número médio de microcalficações retiradas por caso foi de 20,
o tamanho médio da área dos agrupamentos foi de 15 mm e o tamanho médio de cada
microcalficação foi de 0.29 mm.
O Diagnóstico Cito/ Histológico guiado pelo Ultra-Som
À medida que programas
de screening mamográfico são gerados passamos a ter um maior aporte de
lesões não palpáveis que necessitam de esclarecimento citológico ou histológico.
Através de métodos minimamente invasivos, auxiliados pela propedêutica de imagem,
cada vez mais procuramos reduzir o número de intervenções cirúrgicas, como as
biópsias excisionais. Reduz-se custos hospitalares, que ficam reservados a casos
mais complexos, além de expor menor número de pacientes ao trauma cirúrgico
com todos os seus riscos.
As amostras teciduais destas
lesões subclínicas podem ter como orientador da imagem, a estereotaxia por mamografia
ou a ultra-sonografia. Quando a lesão é visível pelo US esta via é sempre a
preferível. Além de tornar o procedimento mais simples, dispende menos tempo,
não expõe a paciente à radiação e reserva os mamógrafos para os programas de
detecção precoce. Isto é particularmente importante em países como o nosso em
que a falta de mamógrafos é fator limitante na instalação destes programas.
O US permite orientar uma
amostragem citológica obtida pela PAAF (Punção Aspirativa com Agulha Fina),
ou confirmar histologicamente uma imagem ecográfica efetuando uma biópsia percutânea
com Agulha Grossa (Trocarte) conectada a uma pistola de disparo - Core Biopsy.
Esta agulha deve ser inserida quantas vezes forem necessárias, a fim de fornecer
uma amostra tecidual suficiente para o estudo anatomopatológico. Geralmente
cinco disparos são suficientes. A mamotomia (Mammotome, Biopsys Medical Irvine,
Califórnia), através de um sistema de biópsia direcional a vácuo, difere
da core biopsy por possuir uma cânula, normalmente de calibre 11, que
é inserida na lesão mamária uma única vez, corta e envia para o seu lúmen várias
amostras teciduais, permitindo até a exérese total de pequenas lesões. O ABBI
(Advanced Breast Biopsy Instrument, US Surgical, Norwalk, Conn) constitui-se
de uma cânula mais grossa, com 5 a 20 mm, que realiza uma excisão cilíndrica
de tecido, permitindo executarmos uma setorectomia percutânea (LaRaja e cols).
Estes procedimentos, orientados
pelo US, são altamente eficientes no esclarecimento diagnóstico de nódulos sólidos.
Quando efetuamos uma biópsia por agulha em microcalcificações agrupadas com
tradução ecográfica, é imperativo a radiografia dos fragmentos para confirmação
das mesmas.
Discussão
Existe um consenso geral
de que a abordagem mais eficaz na detecção precoce do câncer de mama é o rastreamento
mamográfico, que por ora continua sendo feito pela técnica convencional. As
imagens digitalizadas podem no futuro resultar numa melhor visualização das
microcalcificações por proporcionar melhor contraste dentro do tecido mamário
denso, com eliminação de superposições, além de facilitarem o registro e arquivo.
As mamografias manipuladas por computador permitem solucionar os casos de falsos
negativos por falha do observador. A RNM ainda aguarda melhores dados da sua
aplicação no diagnóstico diferencial de lesões não palpáveis.
A primeira medida preventiva
é a seleção de pacientes que devem ser incluídas nos programas de screening.
O principal fator de risco é o sexo. Portanto, basta ser mulher. Para este grupo
o intervalo de realização da MG já foi referido previamente neste texto. A redução
destes intervalos dependem de fatores de risco adicionais, principalmente o
histórico pessoal de câncer de mama ou de lesões histológicas de risco como
a hiperplasia ductal e a lobular atípica. Cerca de 6 a 19% dos casos de câncer
de mama são resultado de herança genética (Hayes e cols., 1998). Mutações no
gene BRCA 1 expõe a paciente a um risco de 80% de ocorrência deste câncer até
os 70 anos, e a 45% de risco para câncer de ovário até esta faixa etária. Síndromes
como a de Li-Fraumeni, a de Cowden, a de Lynch e a de Peutz-Jeghers conferem
um risco elevado para o desenvolvimento do câncer de mama. Esta triagem genética
é importante para se reforçar a atenção primária. A utilização da ultra-sonografia
mamária deve ser considerada como instrumental propedêutico unido ao exame clínico
periódico e à mamografia.
A utilização de aparelhos
com transdutor de alta frequência ( 10 a 13 MHz ) tem possibilitado nos últimos
anos o desenvolvimento de estudos visando mostrar a capacidade na detecção de
microcalcificações e massas subclínicas. É possível que após a conclusão destes
estudos randomizados e multicêntricos consigamos mostrar que o screening ultra-sonográfico
altera os índices de mortalidade por câncer de mama. Por ora os programas de
rastreamento continuam sendo feitos pela mamografia convencional e o ultra-som
reservado como propedêutica de segundo tempo ou de primeiro nos grupos de alto
risco.
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