Consenso sobre os fundamentos e o manejo da terapia de reposição hormonal
Coordenadores:
Dr. César Eduardo Fernandes, Dr. Nilson Robeto de Melo, Dr. Ronald Perret
Bossemeyer, Dr. Salim Wehba
1. Aspectos
gerais do climatério
À medida que avançamos hoje na transição
demográfica experimentada pelo Brasil, passamos a vivenciar um fenomêno
novo: a expectativa de envelhecer.
A expectativa de vida da mulher brasileira, próxima dos
70 anos, faz com que cerca de 10% da população feminina viva um
terço ou mais de sua vida após a menopausa.
A longetividade e a consequente redução de mortes
prematuras legaram-nos algumas doenças degenerativas e outras próprias
do envelhecimento, muitas delas agravadas pelo “estado menopáusico”.
Conceito
e duração do climatério
Considera-se o climatério uma etapa da vida feminina
dividida em três fases, tendo como marco a menopausa, a saber:
1. fase pré-menopáusica:
que vai do final da menacme até a ocorrência da menopausa;
2. fase perimenopáusica: que abrange o duplo período
de 2 anos, que precede a menopausa e a sucede;
3. fase pós-menopáusica: que
ocorre da menopausa até a senectude.
A TRH envolve riscos potênciais conhecidos e qualificáveis.
O câncer do endométrio e das mamas é um dos aspectos que
mais preocupa a todos.
Mas há evidências de efeitos benéficos importantes,
como a prevenção e tratamentos dos sintomas hipoestrogênicos,
proteção cardiovascular e a doença de Alzheimer, assim
como a redução da incidência de fraturas osteoporóticas,
entre outras.
É consenso atual que os benefícios da TRH superam
seus riscos.
A via oral pode ser escolhida quando se deseja obter maior impacto
positivo sobre o perfil lipídico, mormente sobre as frações
do colesterol, enquanto a via transdérmica oferece melhores resultados
sobre os níveis plasmáticos de triglicérides e de VLDL-colesterol.
Estrógenos e progestogênios devem ser usados como
terapia primária para paciente climatéricas sintomáticas
ou quando se deseja previnir moléstias degenerativas.
Os androgênios podem ser adicionados à TRH quando
se deseja melhorar a libido ou ainda quando os sintomas climatéricos
persistirem, mesmo após a administração de doses adequadas
de estrogênio.
Há uma série de esquemas terapêuticos disponíveis.
Os esquemas mais utilizados, dependendo de cada paciente, são os seguintes:
estrogênio isolado
cíclico ou contínuo;
estrogênio cíclico
e progestogênio cíclico;
estrogênio contínuo
e progestogênio cíclico;
estrogênio contínuo
e progestogênio cíclico trimestral ou quadrimestral;
estrogênio e progestogênio
combinados contínuos;
estrogênio e androgênio
contínuos ou cíclicos;
estrogênio e androgênio
contínuos e progestogênio cíclicos;
tibolona contínua;
progestogênio isolado
cíclico ou contínuo;
O padrão de sangramento da paciente depende do esquema
utilizado.
2. Doenças
cardiovasculares
A doença cardiovascular é a maior causa de morbiletalidade
em mulheres na pós-menopausa, superando todas as outras causas, como
câncer, doença pulmonar, doença infecciosas, doenças
renais e causas externas.
O início dos sintomas de doença cardiovascular
feminina ocorre cerca de 7 a 10 anos mais tarde, em relação aos
mesmos sintomas no sexo masculino; por isso o infarto do miocárdio é
pouco comum em mulheres jovens.
Portanto, pode-se concluir que a mulher mais jovem tem um fator
que a protege da doença cardiocascular, quando comparada com homens da
mesma idade.
As mulheres cujos ovários ainda apresentam produção
adequada de estrogênio têm maior proteção.
Por vários mecanismos, o estrogênio atua sobre
o coração e os vasos, trazendo grande benefício à
mulher, quer em sua longetividade, quer na qualidade de vida. Sua administração
a mulheres na pós-menopausa tende a reduzir os níveis de colesterol
total, colesterol LDL e a aumentar os valores do colesterol HDL, diminuindo
por tanto o risco aterogênico.
A estrogênioterapia diminui a resistência a insulina,
o que faz com que haja redução nos níveis de glicemia.
O estrogênio aumenta o fluxo sanguíneo e diminui
a restência nas artérias, causando vasoldilatação
pela liberação de várias substâncias, como óxido
nítrico, prostaciclina e peptídeo similar à calcitonina;
tem, ainda, função bloqueadora nos canais de cálcio, diminuindo
a possibilidade de hipertensão arterial.
Em âmbito vascular, essas ações preponderam
sobre as alterações do perfil lipídico.
A terapêutica estrogênica dificulta a deposição
da gordural viceral, diminui o desgaste e aumenta a fibrinólise.
Por isso, deve-se enfatizar os benefícios da TRH em mulheres
com história pregressa de IM e AVC.
A TRH em mulheres na pós-menopausa diminui em 50% o risco
de doença cardiovascular, com inequívoca ação cardioprotetora.
3. Osteoporose
pós-menopáusica
A osteoporose define-se como a doença caracterizada pela
deterioração da microaequitetura do tecido ósseo, com redução
da massa óssea em níveis insuficientes para a função
de sustenção, tendo como consequência elevado risco de fratura.
Constitui-se na mais comum das doenças osteometabólicas
que afetam muitas mulheres no final de suas vidas.
As variedades osteoporóticas pós-menopáusica
e senil são consideradas formas primárias e involutivas de osteoporose,
correspondentes a 80% dos casos. Nos 20% restantes, há uma doença
secundária que determina a osteoporose.
A deficiência estrogênica pós-menopáusica
acarreta perda acelerada de massa óssea. Há um aumento de reabsorção,
não acompanhada na mesma magnitude pelo aumento da formação
óssea, levando a um balanço negativo de cálcio, implicando
progressiva perda óssea, particularmente nos 3 a 6 primeiros anos da
pós-menopausa. Em consequência dessa perda óssea, cerca
de 25% das mulheres desenvolverão osteoporose após 15 a 20 anos
de hipoestrogenismo.
A perda óssea se faz de forma silenciosa. Os sintomas
e sinais só se manisfestam após a ocorrência de fraturas.
O traço genético é o mais importante entre os fatores de
risco. Também contribuem a idade da menopausa, a constituição
esquelética, o uso de algumas medicações (em particular
os corticosteróides), a dieta, os exercícios e os hábitos
de vida, como alcoolismo, tabagismo e outros.
A densiometria óssea permite uma medição
não-invasiva, rápida e precisa da massa óssea. O pico de
massa óssea e a densidade óssea observadas por ocasião
da menopausa têm bom valor preditivo para o desenvolvimento da osteoporose.
A terapêutica de reposição hormonal (TRH)
é o recurso mais importante na prevenção da osteoporose
pós-menopáusica. Deve ser instituída assim que se confirme
o declínio da função ovariana. Os benefícios são
tanto maiores quanto mais cedo for instituído o tratamento, que deve
ser feito por longo período, nunca inferior a cinco anos.
Tem-se comprovado com a TRH uma redução na incidência
de fraturas do punho e do quadril da ordem de 50%, enquanto a redução
das deformidades alcança 90%.
O cálcio, por outro lado, tem efeitos benéficos
como coadjuvante na prevenção e no tratamento da osteoporose pós-menopáusica,
não podendo, no entanto, substituir os efeitos de proteção
da reposição estroprogestativa.
O tratamento farmacológico da osteoporose permanece controverso
e insatisfatório.
Alternativas de associação de fármacos
à TRH para tratamento ou prevenção da osteoporose pós-menopáusica:
diuréticos tiazídicos:
25 mg/dia;
calcitonina: 50 a 200
UI/dia;c
alcitriol (1,25-diidroxivitamina
D3): doses superiores a 0,5 mg/dia;
fluoreto de sódio:
25 a 35 mg ao dia (efeito discutível);
agentes anabolizantes
– decanoato de nandrolona: 25 a 50 mg IM cada 3 ou 4 semanas.
Existe razoável esperança de que estudos futuros
demonstrem melhor conhecimento de eventual sinergismo na eficácia associativa
à TRH dos diferentes fármacos não-hormonais que atuam na
remodelação óssea.
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