Define-se a fibromialgia como uma síndrome de dor difusa,
referida nos ossos, músculos, tendões e faciais de caráter
crônico, e que apresenta pontos muitos dolorosos à palpitação
em locais predeterminados chamados pontos dolorosos ou tender points.
Além do quadro doloroso em mais de 75% dos pacientes
ocorrem fadiga intensa e distúrbio da qualidade do sono. Em mais de 25%
a 30% acontecem enxaquecas, cólon irritável, dismenorréia,
disestesias, edema subjetivo e alterações do humor (especialmente
ansiedade e depressão).
Quadros de dor músculo-esquelética sem substrato
anatomopatológico são conhecidas na literatura desde a antiguidade,
entretanto, durante a história, eram consideradas como manifestações
secundárias à outras doenças, especialmente da esfera psicopsiquiátrica,
relegando o seu estudo a segundo plano.
Na década de 70, duas descobertas mudaram o rumo das
pesquisas na dor crônica difusa:
O encontro de uma alteração eletrofisiológica
no sono do paciente com dor crônica, que ao ser reproduzida em voluntários
normais provocavam o aparecimento de sintomas dolorosos.
A constatação de que o exame dos “pontos
dolorosos” era reproduzível tanto intra, como inter-observadores.
Desde essa época passou-se a denominar os pacientes com
dor e pontos dolorosos de portadores de fibromialgia, entretanto havia bastante
confusão quanto à homogeneidade dos grupos estudados. Finalmente
em 1990 foram publicados critérios para classificação e
diagnóstico da fibromialgia, pelo Colégio Americano de Reumatologia,
após criterioso estudo multicêntrico. Esses critérios tem
uma especificidade de 81% e uma sensibilidade de 84%, e são:
Presença de dor
difusa pelo corpo há pelo menos três meses. Difusa é considerada
a queixa que compromete acima e abaixo da cintura, á esquerda e à
direita da linha média.
Obrigatoriamente, pelo
menos um segmento da coluna tem de estar comprometido
Presença de no
mínimo 11 dos 18 pontos dolorosos. Ponto doloroso é definido
quando o paciente refere dor à palpação do local com
uma força aproximada de 4 Kg. Os 18 pontos dolorosos foram selecionados
por serem os melhores discriminadores com outras doenças dolorosas
inserção occipital bilateral; projeção lateral
de C5-C6 bilateral; borda anterior do ramo horizontal do trapézio bilateral;
inserção do supraespinhoso no ângulo medial da escápula
bilateral; segundo espaço intercostal na borda esterno costal bilateral;
dois centímetros distalmente ai epicôndilo lateral bilateral;
glúteo médio bilateral; eminência trocantérica
bilateral; interlinha mediao do joelho bilateral.
Para efeito dos critérios, não há diferença
se a fibromialgia é isolada ou concomitante com outra doença;
por isso não cavem mais conceitos de primária e secundária.
Assim mesmo, desde que a fibromialgia pôde coexistir com outra(s) doença(s),
ela não é considerada como diagnóstico de exclusão.
Do ponto de vista do atendimento médico, calcula-se que
5% a 10% das consultas em ambulatórios de clínica geral e até
30% em reumatologia são devidas à fibromialgia.
Tratamento
O tratamento da fibromialgia ainda está longe do ideal.
Desde que a etiologia continua desconhecida a terapêutica se baseia no
controle dos sintomas e sinais. Como problema importante no tratamento, surge
a dificuldade encontrada em medir o quanto a terapêutica está sendo
eficaz, já que não existem alterações objetivas
que possam servir de parâmetro na evolução dos pacientes
e o sintoma dor é fundamentalmente subjetivo.
O único consenso no tratamento é que o paciente
dever ser tratado de maneira global, e nos diferentes domínios afetados
pela dor crônica. Assim o apoio psicológico é fundamental,
seja ele fornecido pelo clínico ou até por profissionais especializados
quando o quadro clínico necessitar. Todos os pacientes devem ser submetidos
a um programa de recondicionamento aeróbico, pois está provado
que o exercício físico aumenta o limiar de dor, aumenta a serotonina
cerebral, melhora a qualidade de sono e o humor.
Do ponto de vista farmacológico, nenhuma droga funciona
a contento da maioria dos pacientes. A mais estudada e que tem os melhores resultados
é a amitriptilina, derivado tricíclico, que é benéfica
em 30% a 40% dos pacientes, usada na dose de 25 a 50 mg/dia. Outros antidepressivos
são menos eficazes e geralmente tem um perfil de efeitos colaterais que
impedem o seu uso prolongado nesses pacientes. Duas notas de alertas devem ser
dadas:
Os corticoesteróides não são eficientes
no tratamento da dor da fibromialgia e somados ao seu potencial enorme de efeitos
colaterais graves devem ser formalmente contra-indicados.
O uso de analgésicos narcóticos deve ficar restrito
a crises agudas de causa identificável, pois o seu uso crônico
traz tolerância e dependência, fenômenos esses que a gravidade
do quadro de base não justifica.
O desconhecimento da fisiopatologia da dor músculo-esquelética
é uma das razões pelas quais vários métodos terapêuticos
foram propostos para seu controle. Apesar do grande progresso ocorrido no campo
da farmacoterapia nos últimos anos, os resultados do tratamento farmacológico
da dor crônica de origem músculo-esquelética nem sempre
são satisfatórios, especialmente na ausência de acompanhamento
concomitante por profissionais das áreas de medicina física e
saúde mental.
Medicamentos analgésicos, miorrelaxantes, antidepressivos
e neurolépticos são habitualmente prescritos para o tratamento
dessas síndromes álgicas. O uso de morfínicos fracos ou
fortes é decorrente, especialmente se houver limitação
ao uso de antiinflamatórios não-hormonais. Em algumas circunstâncias
utilizam-se procedimentos invasivos como o uso de cateteres epidurais, sistemas
implantáveis para infusão de analgésicos, rizotomia facetaria
a fim de facilitar o processo de reabilitação.
A dor deve ser tratada segundo a escala ascendente de potencia
de medicamentosa antes de realizar procedimentos neurocirúrgicos antiálgicos.
Os analgésicos antiinflamatórios e os psicotrópicos associados
ou não aos analgésicos morfínicos de baixa potência
e se necessário de analgésicos morfínicos de elevada potência
são as classes medicamentosas mais utilizadas para o tratamento da dor.
Os miorrelaxantes apresentam algum papel antiálgico. Os corticosteróides,
os bloqueadores da atividade osteoclástica e os tranqüilizantes
menores são indicados em casos especiais.
Somente em casos rebeldes ao tratamento farmacológico,
os bloqueios anestésicos e os procedimentos neurocirúrgicos devem
ser considerados.
Analgésicos
antiinflamatórios não-hormonais (AINH)
São muito úteis para o tratamento da dor quando
prescritos isoladamente ou em associação aos derivados de morfina.
Ao AINHs são inibidores de vários sistemas enzimáticos
especialmente da cicloxigenase que condiciona a síntese das prostaglandinas
que estão envolvidas no processo inflamatório e na sensibilização
do sistema nervoso central (SNC). Alguns são analgésicos puros
(acetominofeno), outros exercem poucos efeitos antiinflamatório (dipirona,
ácido mefenâmico) e outros são potentes antiinflamatórios
(indometacina), Alguns são administrados uma vez ao dia (oxicanas), outros
duas vezes (ácido propiônico) e outros 4 a 6 vezes ao dia (ácido
acético e salicilatos).
Recentemente, lançou-se no mercado nacional o meloxican,
que atua apenas sobre a cicloxigenase-2 (COX-2), que, teoricamente, intervém
apenas na síntese das prostaglandinas onde há doença inflamatória
e não das prostaglandinas fundamentais para função da mucosa
gástrica e renal.
A aspirina, a indometacina, a dipirona, o ibuprofeno, o cetoprofeno,
o naproxeno e o diclofenaco são os produtos mais utilizados em nosso
meio.
Analgésicos
morfínicos
São muito úteis para o tratamento da dor especialmente
quando os AINHs não são eficazes e quando há contra-indicações
ou adversidades com eles. A associação dos agentes morfínicos
com os AINHs proporciona resultados mais satisfatórios que quando prescritos
isoladamente.
Alguns efeitos são indesejáveis, como as náuseas,
vômitos, prurido, tonturas, síndrome de secreção
inadequada de hormônios antidiuréticos, retenção
urinária, xerostomia, depressão respiratória, sonolência,
disforia, dependência e tolerância. Desses, a obstipação
intestina, as náuseas, vômitos e a disforia são os mais
comuns, podendo em muitos casos restringir seu emprego.
Morfínicos
fracos
O fosfato de codeína, dextropopoxífeno, o tramadol,
a oxicodona, hidrocodona e a pentazocina são os agentes incluídos
nesse grupo.
Morfínicos
potentes
Quando não se obtém analgesia com os morfínicos
fracos, inicia-se o uso de morfínicos potentes. O sulfato e cloridrato
de morfina são os agentes desse grupo mais utilizados por via oral. São
apresentados em suspensões, supositórios e comprimidos e em ampolas
para uso parenteral. Doses iniciais de 10 a 30 mg a cada 4 horas são
satisfatórias na maioria dos casos. Não há teto de dose.
Incluem-se entre os agonistas puros, a morfina, a meperidina,
a fentanila, a metadona, o levorfanol, diacetil-morfina, e a oximorfona; entre
os agonistas parciais a buprenorfina e entre os agonistas-antagonistas, a pentazocina,
o butorfanol e a nalbufina.
Medicamentos adjuvantes
São representados por fármacos originalmente desenvolvidos
para outras finalidades que não o tratamento da dor.
Antidepressivos
Apresentam efeitos analgésicos, normalizam o ritmo do
sono, melhoram o apetite e estabilizam o humor. Devem ser sempre que possível,
administrados em adição aos analgésicos para potencializar
seus efeitos. São em associação com os neurolépticos,
muito eficazes para o tratamento da dor músculo-esquelética. Os
antidepressivos tricíclicos são os mais utilizados para esse fim.
Neurolépticos
Apesar das controvérsias, as fenotiazinas e as butirofenonas
são amplamente empregadas para o tratamento da dor, geralmente em associação
com os analgésicos e antidepressivos. Apresentam efeitos antipsicótico,
sedativo, analgésico, ansiolítico e antiemético. A clorpromazina,
a levopromazina e propericiazina são os mais utilizados. Apresentam efeitos
sedativos, anticolinérgicos e antidopamenérgicos dos que pode
resultar em sonolência, confusão mental, hipotensão postural,
retenção urinária e síndrome parkinsoniana, sendo
empregados com cuidado especial na população acima mais idosa.
Discenesias tardias são observadas em alguns casos em tratamentos prolongados.
Em doentes com o mal de Perkinson, as bezamidas modificadas (tiaprida e sulpirida)
podem ser empregadas.
Miorrelaxantes
Na dependência da fisiopatologia da dor músculo-esquelética
os miorrelaxantes apresentam maior ou menor efeito analgésico. Os miorrelaxantes
como clormezanona, tizandina não apresentam efeito desejável no
tratamento da dor músculo-esquelética; já a ciclobenzaprina
parece agir em casos de fibromialgia.
O baclofeno é medicação miorrelaxante com
efeito antineurálgico. É utilizado para o tratamento da espasticidade,
doença de Parkinson, neuralgia do trigêmeo, cefaléia e outras
dores neuropáticas, incluindo a neuralgia pós-herpética
além do seu efeito miorrelaxante.
A flupirtina é um analgésico potente, com ação
central e efeito miorrelaxante. Apresenta potência intermediária
entre o paracetamol e a morfina. O mecanismo de ação não
está estabelecido. Parece exercer efeito analgésico na medula
encéfalo e inibir as protoglandinas nos tecidos.
A ciclobenzaparina promove ação miorrelaxante
por atuar em circuitos polissinápticos no tronco encefálico e
na medula espinhal. Apresenta efeito sedativo e miorrelaxante. Fraqueza, impotência
funcional, tonturas, vertigem, insônia, depressão, taquicardia,
síncopes, eritema, asma, náuseas, vômitos e soluços
são adversidades observadas com seu uso.
A orfenadrina é um relaxante muscular que exerce atividade
anticolinérgica muscarínica central periférica, atividade
anti-histamínica, relaxante muscular, noradrenérgica e serotoninérgica
central. Obstipação, sialosquese, retenção urinária,
astenia, fadiga, sonolência, hipotensão arterial, taquicardia sinusal,
borramento visual, alucinações e confusão mental podem
ocorrer com o seu uso. Deve ser empregada com cuidado em prostáticos
e comatosos.
Anticonvulsivantes
A carbamazepina, a difenilhidantoína, o clonozepan, o
valproato de sódio e o baclofeno são indicados para o tratamento
da dor paroxística que acompanha as neuropatias periféricas e
centrais. Apresentam efeito analgésico limitado nas dores músculo-esquelética.
Tranqüilizantes
menores
Apresentam efeito tranqüilizante, anticonvulsivante e miorrelaxante.
São eficazes para o tratamento da ansiedade aguda, da fobia, do espasmo
muscular, convulsões e mioclonais e para normalizar indução
do sono. Apenas o clonazepan efeito antineurálgico. Com finalidade miorrelaxante
o diazepan é o mais utilizado. Como indutor do sono, o lorazepan e o
midazolan são os mais empregados. Como ansiolítico, o alprazolan
é recomendado.
Corticosteróides
São poucos indicados nas dores músculo-esqueléticas.
Inibem a síntese de ácido aracdônico, precursor de prostaglandinas
e leucotrienos. A dexametasona, a prednisolona, a betametasona e o succinato
sódico de metilprednisona são agentes mais utilizados em nosso
meio.
Anfetaminas
A dextroanfetamina e a metanfetamina potencializam o efeito
analgésico dos morfínicos, combatem seus efeitos sedativos e apresentam
efeito antidepressivo. O metilfenidato é muito utilizado para o tratamento
de doentes com sonolência por uso de morfínicos. Taquicardia, insônia,
agitação e acidentes cardiocirculatórios são descritos
com tais agentes. Deve-se ter cuidado especial em idosos. Sempre avaliar a função
tireoideana previamente ao seu uso.
Viminol
Exerce efeito analgésico por mecanismos ainda não
esclarecidos. É muito bem tolerado. Apresenta leve efeito sedativo. Eventualmente,
pode acarretar sensação de empachamento epigástrico e náuseas.
Potencializa o efeito hipnótico dos barbitúricos.
Outros agentes farmacológicos
A cafeína parece atuar como coanalgésico em doses
de 1000 mg a 200 mg a cada 4 horas. A calcitonina, os bisfosfonatos e a mitramicina
parecem melhorar a dor decorrente de metástases ósseas, porém
a primeira tem sido utilizada com adjuvante no tratamento de dores músculo-esqueléticas.
O efeito analgésico do L-tritofano precursor da serotonina necessita
ser mais bem avaliado. Os canabinóides apresentam efeito euforizante,
orexígeno, antiemético e analgésico. Sua eficácia
para o tratamento da dor necessita melhor avaliação. Bloqueadores
alfaadrenérgicos (fenoxibenzamina), agonistas alfa-2-adrenérgicos
(clonidina) e betabloqueadores parecem ser pouco eficientes para o tratamento
da distrofia simpático-reflexa.