Biologia molecular e o diagnóstico clínico
Como
a biologia molecular modificou o diagnóstico clínico?
A evolução
na área da biologia molecular modificou e aperfeiçoou
o diagnóstico na prática médica e,
ainda, é um processo que está em andamento.
As técnicas como a microscopia e a sorologia, rotineiramente
utilizadas no diagnóstico de diversas doenças
que envolvem a pesquisa e detecção de antígenos
e anticorpos específicos, além de serem limitadas
e pouco específicas, não permitem uma diferenciação
entre infecções prévias e recém
adquiridas, dificultando o estabelecimento de cura e tratamento
eficaz.
Quais
foram os fundamentos que permitiram essas mudanças?
Desde a determinação
da estrutura do DNA, feita por Watson e Crick, em 1953,
até os dias de hoje, inúmeros avanços
alavancaram a explosão de conhecimentos da biologia
e genética moleculares. As técnicas de biologia
molecular e DNA recombinante estão contribuindo para
o aperfeiçoamento dos métodos de pesquisa
de marcadores biológicos específicos para
o diagnóstico das doenças infecciosas. Essas
técnicas de biologia molecular têm contribuído
não só para o aprimoramento de abordagens
que detectam a presença do patógeno no hospedeiro
( identificação de seqüências de
ácidos nucleicos específicas dos patógenos)
como, também, de abordagens que indicam a exposição
ao agente infeccioso neste hospedeiro (detecção
de anticorpos a partir de antígenos recombinantes
específicos).
Dentre as
principais técnicas de biologia molecular utilizadas
no diagnóstico clínico, destacam-se as técnicas
de Southern-blot, Northen-blot, Western-blot além
do processo de hibridização in situ, onde
cortes histológicos obtidos de amostras recolhidas
a partir de biópsias, autópsias ou esfregacos
são hibridizados com sondas moleculares específicas.
As sondas podem ser utilizadas para detecção
e identificação da espécie e/ou cepa
de um organismo em cultura ou amostra clínica para
fins epidemiológicos e, principalmente, no diagnóstico
clínico. Essas sondas de DNA espécie-específicas
já vêm sendo utilizadas há alguns anos
para identificação e caracterização
de uma variedade de bactérias, parasitas e vírus.
Foi na última
década, no entanto, que as técnicas de clonagem,
de produção in vitro de DNA, a reação
em cadeia da polimerase (PCR) e de seqüenciamento de
material genético ficaram mais acessíveis
e eficientes. O PCR, que é o método de amplificação
do DNA alvo por meio de um processo enzimático que
utiliza um par de oligonucleotídeos específicos
( primers ou iniciadores), é de alta sensibilidade.
A técnica do PCR tem sido muito utilizada para o
diagnóstico de doenças importantes com a detecção
do vírus das hepatites virais, HIV, HTLV-I e II ,
rubéola, mononucleose, Mycoplasma.
Recentemente
tem sido utilizada para a detecção de RNA
mensageiro para citocinas, além de empregada em estudos
de parasitas como o Plasmodium, Leishmania , Trypanosoma,
Toxoplasma gondii, Giardia e outros. No caso da AIDS, o
PCR vem sendo muito utilizado para monitoramento da carga
viral .e resistência anti-retroviral. O advento dos
recursos que a biologia molecular oferece em a nível
de diagnostico clínico, está trazendo informações
importantes, que, sem dúvida, serão crucias
na prática médica. O projeto Genoma Humano
é uma das conseqüências dessa revolução
tecnológica. No entanto, essa tecnologia avançada
tem que estar subordinada a princípios éticos,
sem os quais a genética pode ser extremamente danosa
ao indivíduo e à sociedade.
Quais
seriam os principais impactos da biologia molecular no diagnóstico
clínico?
Para as doenças
genéticas, a classificação molecular,
ou seja, baseada no defeito detectado no DNA, alterou inteiramente
muitas das classificações nosológicas
existentes até há poucos anos, que eram baseadas
em elementos clínicos e de outros exames complementares.
Dessa forma, foi possível definir, por exemplo, a
ocorrência de uma doença, diferentes genes
envolvidos, que é o que se denomina heterogeneidade
genética. Como exemplo, temos a esclerose tuberosa,
autossômica dominante, sendo identificados dois genes
(TSC1 e TSC2), localizados em diferentes cromossomos; Síndrome
de Bardet-Biedl, autossômica recessiva, até
o momento pelo menos cinco genes localizados em diferentes
cromossomos (2, 3, 11, 15 e 16);Síndrome de Leigh
e outras.Em algumas doenças, existe uma boa correlação
entre a alteração do DNA e o fenótipo,
ou seja, a mutação encontrada é preditiva
do quadro clínico. Em outras, isso não acontece,
o que faz suspeitar que outros genes ou fatores ambientais
interfiram com a caracterização fenotípica.
Como exemplo, podemos citar a adrenoleucodistrofia, recessiva
ligada ao X.
O estudo das
bases genéticas de doenças de alta prevalência
é bastante promissor e está apenas começando.
Para algumas condições, como a doença
de Alzheimer, os fundamentos genéticos já
foram bem estabelecidos, enquanto que para outras, como
as doenças psiquiátricas, os resultados foram
até o momento pouco conclusivos. Condições
como esclerose múltipla, hipertensão arterial,
diabetes, hipercolesterolemia são multifatoriais,
dependendo tanto de fatores ambientais como genéticos.
É interessante como genes e ambiente se inter-relacionam
na geração de um determinado fenótipo,
havendo uma clara associação entre hipertensão
arterial e estilo de vida. Por exemplo, a freqüência
de hipertensão arterial entre negros que vivem em
regiões rurais da África é muito mais
baixa do que entre afro-americanos que vivem em centros
urbanos dos EUA.
A determinação
de genes que condicionem suscetibilidade a doenças
de alta prevalência tem grande relevância clínica
e deve modificar a forma como hoje entendemos e tratamos
essas doenças. Da mesma forma, o tratamento de muitas
doenças deve ser alterado na medida em que soubermos
melhor as bases genéticas que determinam a variabilidade
na resposta terapêutica.
Para as neoplasias,
acredita-se que cerca 10% dos casos sejam decorrentes de
mutação em um único gene, podendo ser
transmitidas de forma dominante de uma geração
para outra. A ocorrência de mutação
em um determinado gene aumentaria muito o risco de aparecimento
do câncer. Entre as neoplasias que têm sua base
genética mais bem estabelecida estão o retinoblastoma
e os neurofibromas da neurofibromatose tipo 1. Essas doenças
podem ter herança autossômica dominante ou
ocorrerem de forma isolada, em conseqüência a
mutação de novo. A existência de uma
mutação afetando um dos alelos de determinado
gene faz com que reste apenas um alelo funcionante. Se,
durante a vida, existe um "acidente" genético
que ocasione perda de função de uma única
cópia restante, essa célula pode adquirir
uma vantagem proliferativa, que vai terminar por levar a
um câncer. Na maioria dos cânceres, no entanto,
não basta a perda de função de um único
gene; na maior parte das vezes, é necessária
uma sucessão de mutações em diversos
genes localizados em diferentes cromossomos. Essas mutações
se dão ao longo de anos e terminam por levar a uma
vantagem proliferativa a uma linhagem celular. Essa perda
de mecanismos que controlam a proliferação
celular é que ocasiona o câncer.
Na prática
clínica, o diagnóstico das principais doenças
infecciosas como HIV, hepatite B e C, HPV e outras é
feito utilizando os recursos das técnicas de biologia
molecular. É possível, como rotina, para alguns
desses agentes, se determinar a presença de certas
proteínas específicas por Western blot, detectar
e quantificar material genético por PCR ou ainda
obter-se a seqüência de partes do genoma do agente
infeccioso em questão. O mesmo ocorreu no campo da
identificação humana, em que é possível
a determinação de paternidade ou a associação
entre uma amostra biológica (p. ex., sangue, cabelo,
etc.) e um determinado indivíduo.
Nessas duas
condições, existem técnicas padronizadas
e um grande número de indivíduos que, potencialmente,
podem-se beneficiar desses estudos. Dessa forma, esses exames
estão na rotina de muitos laboratórios. No
diagnóstico de neoplasias, especialmente leucemias,
diversas técnicas de biologia molecular permitem
detectar rearranjos cromossômicos e mostrar pontos
de quebra bem definidos. No entanto, a maior parte das neoplasias
tem sua base molecular inteiramente desconhecida. O futuro
nessa área é, no entanto, bastante promissor.
Prevê-se que as neoplasias sejam reclassificadas,
levando em conta o padrão de expressão de
genes que elas apresentam. Os chamados chips de DNA (ou
DNA arrays) virão facilitar, em muito, a determinação
dos padrões de expressão gênica dos
tumores.
Para o diagnóstico
de doenças genéticas é, teoricamente,
possível se buscar mutações em todo
o gene que tenha sua seqüência conhecida. Na
prática, existem diversos fatores complicadores.
Para muitas doenças genéticas, tendo em vista
a grande diversidade de mutações e a complexidade
e alto custo das técnicas empregadas, a análise
mutacional é somente feita em laboratórios
de pesquisa.
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