Muitos pacientes apresentam sangramento digestivo oculto ou obscuro embora critérios
diagnósticos bem estabelecidos não tenham sido desenvolvidos para ambos. O termo
sangramento digestivo oculto se refere ao paciente com pesquisa de sangue oculto
nas fezes (PSOF) positiva e/ou anemia ferropriva (AFP), sem sangue visível nas
fezes. O termo sangramento obscuro é definido como um sangramento de origem
desconhecida que persiste ou aparece novamente após uma avaliação endoscópica
inicial (endoscopia digestiva alta ou colonoscopia) sem alterações. O Clinical
Practice and Practice Economics Committee da American Gastroenterological Association
(AGA) publicou uma revisão da literatura com recomendações para a abordagem
e tratamento do sangramento digestivo oculto e obscuro.
A avaliação no leito pode
fornecer dicas sobre a causa do sangramento. Uma história clínica pode identificar
a ingestão de medicamentos que causam sangramento (como a aspirina, por exemplo,
AINH, alendronato, cloreto de potássio e anticoagulantes). Os antecedentes familiares
podem sugerir um distúrbio vascular hereditário. Outras causas raras podem ser
identificadas no exame físico, como a síndrome de Plummer-Vinson, AIDS, neurofibromatose
e outras doenças com manifestações cutâneas características. A presença de sintomas
específicos do trato digestivo superior ou baixo pode dirigir a avaliação endoscópica
inicial.
A colonoscopia e a endoscopia
digestiva alta ainda representam os principais métodos de investigação em pacientes
com sangramento oculto. Em uma revisão sobre as causas de sangramento oculto,
a AFP e a PSOF positiva são mais comumente relacionadas aos sangramentos com
origem no trato digestivo superior (29 a 56 por cento) que no baixo (20 a 30
por cento). Além disso, a probabilidade de identificar a origem do sangramento
é mais elevada em pacientes com AFP (61 a 71 por cento) que naqueles com PSOF
positiva (48 a 53 por cento). A tabela 1 mostra uma lista de causas de sangramento
oculto associadas com a AFP e PSOF positiva. Existem algumas evidências de que
os estudos de duplo contraste com bário são menos precisos que a endoscopia
na identificação da origem do sangramento, mas representam uma boa alternativa
quando são considerados determinados fatores como a preferência do paciente,
os riscos relacionados à sedação, comorbidades e a experiência do serviço. A
avaliação do intestino delgado deve ser reservada para pacientes com AFP ou
PSOF positiva de forma persistente, que, por definição, são portadores de sangramento
obscuro.
| Erro! Argumento
de opção desconhecido. |
TABELA
1
Causas de sangramento GI oculto |
| Pesquisa
de sangue oculto nas fezes positiva |
Anemia
ferropriva |
|
Lesões do TGI superior
- Esofagite
- Doença ulcerosa péptica
- Gastrite/erosões
- Duodenite/erosões
- Angiodisplasia
- Varizes esofágicas ou gástricas
- Neoplasias gástricas
- Pólipos gástricos ou duodenais
Lesões do cólon
- Pólipos
- Neoplasias
- Angiodisplasia
- Úlceras
|
Lesões do TGI superior
- Esofagite
- Doença ulcerosa péptica
- Gastrite / erosões
- Duodenite / erosões Angiodisplasia
- Gastropatia hipertensiva
- Neoplasias gástricas ou esofágicas
|
- Pólipos gástricos ou duodenais
- Doença celíaca
- Doença de Crohn
- Linfoma gástrico ou duodenal
- Gastrectomia parcial
- EVAG
|
Lesões do cólon
- Pólipos
- Neoplasias
- Angiodisplasia
- Úlceras
|
- Colite/DII
- Infestação parasitária
- Hemorróidas
- Divertículos
|
|
|
TGI = trato gastrointestinal;
DII = doença intestinal inflamatória;
EVAG = ectasia vascular do antro gástrico.
Reimpresso com permissão da revisão sobre
a abordagem de pacientes com sangramento digestivo oculto da AGA. Gastroenterology
2000;118:211.
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| Erro!
Argumento de opção desconhecido. |
A incidência e a localização
de lesões responsáveis por sangramento obscuro não são bem estabelecidas. Deve-se
investigar o intestino delgado dos pacientes com sangramento obscuro, muitas
vezes sendo necessário repetir endoscopias digestivas altas e colonoscopias.
A tabela 2 apresenta uma lista de causas relacionadas. Vários métodos podem
ser utilizados para avaliar o intestino delgado. Através de biópsias, é possível
diagnosticar a doença celíaca. Outros métodos incluem a enteroscopia, radiografias
com contraste por via oral, e a enteróclise (na qual o contraste é administrado
através de uma sonda colocada na porção proximal do intestino). Quando o volume
do sangramento é maior que 0,1 a 0,4 mL/min, o estudo com radioisótopos pode
ajudar a identificar a sua origem. Entretanto, tendo em vista o grande número
de falsos positivos, os achados devem ser confirmados por outros métodos diagnósticos.
A angiografia pode ser útil em pacientes com sangramento ativo de mais de 0,5
mL/min, identificando ainda lesões bem vascularizadas, como a angiodisplasia
e neoplasias.
| Erro! Argumento
de opção desconhecido. |
TABELA
2
Causas de sangramento gastrointestinal obscuro |
| Causas
identificadas na endoscopia digestiva alta |
Causas
não observadas na endoscopia digestiva alta |
|
Erosões associadas à hérnia de hiato (erosões
de Cameron)
Esofagite
Angiodisplasia
Varizes de esôfago
Doença ulcerosa péptica
Gastrite
Pólipos gástricos
Ectasia vascular do antro gástrico
Síndrome do "blue rubber bleb nevus"
Síndrome de Osler-Weber-Rendu
Lesões de Dieulafoy
Doença celíaca
|
Angiodisplasia
Tumores do intestino Delgado*
Úlceras e erosões do intestino delgado,
incluindo as lesões associadas ao uso de AINH e outras drogas
Doença de Crohn
Doença celíaca
Diverticulose do intestino delgado
Varizes do intestino delgado
Linfangioma
Enterite actínica
Síndrome de Osler-Weber-Rendu
Síndrome do "blue rubber bleb nevus"
Doença de von Willebrand
Síndromes de poliposes do intestino Delgado
Síndrome de Gardner
Fistula aorto-entérica
Amiloidose
Divertículo de Meckel
Hemobilia
Hemosuccus pancreaticus
|
|
GI = gastrointestinal; AINH = anti-inflamatórios
não hormonais.
*-- Inclui o adenocarcinoma de intestino delgado, lesões metastáticas,
linfoma, leiomioma, leiomiossarcoma, melanoma, carcinóide e lipoma.
Reimpresso com permissão da revisão sobre
a abordagem de pacientes com sangramento digestivo oculto da AGA. Gastroenterology
2000;118:212.
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| Erro!
Argumento de opção desconhecido. |
A revisão da AGA conclui
que nenhum método diagnóstico isolado pode ser considerado a melhor forma de
avaliar pacientes com sangramento digestivo. A maioria dos casos devem ser investigados
cuidadosamente, observando-se também a maior extensão possível do intestino
delgado. Em alguns pacientes, isso requer vários procedimentos. Novos estudos
são necessários para identificar a melhor abordagem para determinar o diagnóstico
definitivo de pacientes com sangramento digestivo.
Referência
Clinical Practice and
Practice Economics committee, American Gastroenterological Association. AGA
technical review on the evaluation and management of occult and obscure gastrointestinal
bleeding. Gastroenterology January 2000;118:201-21.