Abordagem diagnóstica em pacientes com dor abdominal e alteração do hábito intestinal
A investigação
diagnóstica em pacientes que apresentam dor abdominal e alteração
do hábito intestinal não é fácil. Embora algumas
doenças orgânicas possam se manifestar com esses sintomas, a síndrome
do cólon irritável (SCI) é uma condição bastante
comum. Pode ser difícil avaliar adequadamente esses pacientes sem utilizar
um grande número de exames diagnósticos.
A pesquisa
dos critérios Rome II e de sinais de alerta (como emagrecimento, sangramento
gastrointestinal, anemia, febre ou sintomas noturnos) representam uma abordagem
diagnóstica prática para o diagnóstico da síndrome
do cólon irritável. Nos casos em que se observam sinais de alerta
ou critérios Rome II, deve-se reavaliar o paciente posteriormente. Naqueles
que apresentam os critérios Rome II mas não se observam sinais
de alerta, a conduta depende da faixa etária: pacientes com idade igual
ou menor que 50 anos podem ser avaliados com base nos sintomas predominantes
- constipação, diarréia ou dor abdominal.
Os indivíduos
acima de 50 anos devem ser melhor avaliados, levando-se em consideração
a possibilidade de encaminhamento para o gastroenterologista. Quando os pacientes
apresentam sinais de alerta, independente da faixa etária, deve-se realizar
uma avaliação completa (considerando-se a possibilidade de encaminhamento
para o gastroenterologista).
Diagnóstico diferencial
Muitas doenças apresentam
manifestações clínicas semelhantes àquelas encontradas
na SCI.19,20 Algumas delas são condições graves e exigem
abordagem terapêutica agressiva. Os principais diagnósticos diferenciais
em pacientes com dor abdominal e alteração do hábito intestinal
podem ser encontrados na Tabela 2.
| TABELA
2 - Diagnóstico diferencial da síndrome do colon irritável |
|
Doença inflamatória
intestinal (doença de Crohn ou colite ulcerativa)
Medicamentos (laxantes,
constipantes)
Infecções
(parasitárias, bacterianas, virais e oportunistas)
Síndromes de
má absorção (doença celíaca, insuficiência
pancreática) |
Doenças
endócrinas (hipotireoidismo, hipertireoidismo, diabetes, doença
de Addison)
Tumores endócrinos
(raros; gastrinoma, carcinóide)
Neoplasias do cólon
e reto (adenocarcinoma, adenoma viloso) |
Pseudo-obstrução
intestinal (diabetes, esclerodermia)
Intolerância
a lactose
Distúrbios
psiquiátricos (depressão, ansiedade, transtornos de somatização) |
Exames
diagnósticos
Até o presente momento,
não existe nenhum exame ou marcador padrão-ouro para o diagnóstico
da SCI, devendo-se realizar uma abordagem diagnóstica, utilizando o menor
número possível de exames e estudos invasivos.21
Como em qualquer doença,
as informações iniciais mais importantes são obtidas através
de uma história clínica e exame físico detalhados. Em pacientes
com sinais de alerta que sugerem a presença de uma doença orgânica,
alguns exames devem ser solicitados. Os sistemas de escore, classificações
em subgrupos, exames laboratoriais, endoscopia e avaliação psiquiátrica
podem ajudar na investigação diagnóstica desses pacientes
(Tabela 3).
| TABELA
3 - Investigação diagnóstica na Síndrome do
Cólon Irritável |
Sistemas
de escore
Manning
Kruis
Rome
I
Rome
II
Classificação
em subgrupos
Predomínio
de constipação
Predomínio
de diarréia
Alteração
do hábito intestinal
(predomínio
de dor)
|
Exames
laboratoriais
Hemograma
completo
Velocidade
de hemossedimentação
Dosagem
de eletrólitos
Estudos
da tireóide
Pesquisa
de sangue oculto nas fezes
Parasitológico
das fezes
Pesquisa
de má absorção da lactose
(em
pacientes com queixa predominante de diarréia) |
Exames laboratoriais
Alguns exames de sangue
podem indicar causas orgânicas para a dor e alterações do
hábito intestinal (doenças inflamatórias intestinais, câncer
de cólon ou causas metabólicas, por exemplo). A maioria dos autores
sugerem a solicitação de hemograma completo em todos os pacientes
sintomáticos. A determinação da velocidade de hemossedimentação,
níveis de TSH (sigla, em inglês, de hormônio estimulante
da tireóide) e de eletrólitos é importante em pacientes
com queixa predominante de constipação ou diarréia. A pesquisa
de sangue oculto nas fezes e o exame parasitológico das fezes são
importantes em pacientes com diarréia.1,2,19,21 A pesquisa de má
absorção da lactose tem valor limitado, exceto em pacientes com
queixa predominante de diarréia.
Abordagem
diagnóstica
É possível
empregar uma abordagem prática com boa relação custo-benefício
em pacientes com dor abdominal e alteração do hábito intestinal.1,12,25,26
Utilizando a presença de sinais de alerta e dos critérios Rome
II como ponto de partida.
Vale ressaltar que as hipóteses
diagnósticas devem ser orientadas pelos sinais e sintomas apresentados
pelo pacientes. Dessa forma, pacientes de maior risco com queixa de constipação
devem apresentar distúrbios funcionais do cólon ou quadros obstrutivos.
Pacientes com queixa de diarréia têm maior chance de apresentarem
uma doença inflamatória intestinal, sangramento gastrointestinal,
neoplasias, infecções, má absorção ou distúrbios
metabólicos. Os pacientes com queixa de dor abdominal provavelmente apresentam
quadros obstrutivos.
Referências
1. Fass R, Longstreth GF, Pimentel M, Fullerton S, Russak SM,
Chiou CF, et al. Evidence- and consensus-based practice guidelines for the diagnosis
of irritable bowel syndrome. Arch Intern Med 2001; 161:2081-8.
2. Longstreth GF. Irritable bowel syndrome: diagnosis in the
managed care era. Dig Dis Sci 1997;42: 1105-11.
3. Talley NJ, Gabriel SE, Harmsen WS, Zinsmeister AR, Evans
RW. Medical costs in community subjects with irritable bowel syndrome. Gastroenterology
1995;109:1736-41.
4. Locke GR 3d. The epidemiology of functional gastrointestinal
disorders in North America. Gastroenterol Clin North Am 1996;25:1-19.
5. Maxwell PR, Mendall MA, Kumar D. Irritable bowel syndrome.
Lancet 1997;350:1691-5.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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