O diabetes
é um problema de saúde com elevados índices de morbidade
e mortalidade. A American Diabetes Association (ADA) divide a doença
em dois tipos: o diabetes tipo 2, mais comum, acometendo mais freqüentemente
adultos obesos e sendo caracterizado por resistência à insulina
e uma discreta redução na secreção de insulina,
e o diabetes tipo 1, mais comum entre jovens e caracterizado por um déficit
na produção de insulina. Barr e colaboradores realizaram uma revisão
sobre os exames utilizados para o diagnóstico da doença.
As diretrizes mais recentes da ADA
recomendam a glicemia de jejum como o principal exame utilizado para o diagnóstico
de diabetes em pessoas não gestantes e definem uma nova categoria de
"glicemia de jejum alterada" (veja tabela em anexo), que inclui indivíduos
com glicemia de jejum entre 110 mg/dL e 126 mg/dL. Essa categoria substitui
a classe anteriormente chamada de "intolerância à glicose",
caracterizada por valores alterados no teste de tolerância oral a glicose
permitindo a identificação de pacientes com risco elevado de desenvolver
a doença. Classicamente, esses valores foram estabelecidos utilizando
a glicemia média de grupos populacionais ou concentrações
a partir das quais eram observadas complicações microvasculares
com maior freqüência.
Esse método para a determinação
de valores de referência pode não ser apropriado, por não
ser exato e não levar em consideração o desenvolvimento
de complicações macrovasculares (cardiovasculares, por exemplo).
Além disso, esses valores devem ser baseados nos benefícios de
se iniciar um tratamento a partir de determinados níveis glicêmicos.
Os riscos clínicos e a sensibilidade e especificidade também devem
ser levadas em consideração quando se pretende determinar os valores
normais de glicemia.
Critérios para o diagnóstico de diabetes mellitus em pessoas não
gestantes - American Diabetes Association (1997)
Para estabelecer o diagnóstico
de diabetes, na ausência de hiperglicemia com descompensação
metabólica aguda, esses critérios devem ser confirmados por exames
repetidos em dias diferentes:
1. Sintomas
de diabetes associados a glicemia casual >=200 mg/dL. Casual é definida
como qualquer período do dia, independente do horário da última
refeição. Os sintomas clássicos incluem poliúria,
polidipsia e emagrecimento sem causa aparente.
2. Glicemia
de jejum >=126 mg/dL. Jejum é definido como a ausência de
ingestão calórica por um período superior a 8 horas.
3. Glicemia
de 2 horas >=200 mg/dL em um teste de tolerância oral à glicose.
O exame deve ser realizado com uma carga de glicose equivalente a 75 g de
glicose anidra dissolvida em água. O emprego desse exame não
é recomendado na rotina clínica.
Obs: Em
centros onde a medida da concentração de hemoglobina glicosilada
(HbA1c) é padronizada, esse exame deve ser incluído na abordagem
diagnóstica dos pacientes com suspeita de diabetes tipo 2. Um exame demonstrando
níveis de HbA1c > a soma da média e dois desvios-padrão
é bastante sugestivo de diabetes tipo 2, mas o diagnóstico exige
confirmação com um dos exames descritos acima (recomendação
de Barr RG, et al). Dados do Report of the Expert Committee on the Diagnosis
and Classification of Diabetes Mellitus. Diabetes Care 1997;20:1183-97, e Barr
RG, Nathan DM, Meigs JB, Singer DE. Tests of glycemia for the diagnosis of type
2 diabetes mellitus. Ann Intern Med 2002;137:263-72.
Os exames disponíveis
atualmente para o diagnóstico do diabetes incluem a glicemia plasmática
aleatória, a glicemia de jejum, os níveis de hemoglobina glicosilada
(HbA1c) e o teste de tolerância oral à glicose. A glicemia plasmática
aleatória é um exame barato e de fácil realização;
níveis elevados em pacientes com sintomas clássicos devem ser
confirmados por um segundo exame. A glicemia de jejum é um exame barato
e reprodutível, mas ainda não se conhecem as implicações
de um limite mais baixo (de 140 mg/dL para 126 mg/dL) sobre a prevalência
e a abordagem dos pacientes. O teste de tolerância oral à glicose
é menos reprodutível e não é mais recomendado para
pacientes não gestantes. A dosagem de HbA1c deve ser utilizada na monitorização
da glicemia de pacientes com o diagnóstico da doença. Avanços
recentes relacionados à técnica aumentaram a reprodutibilidade
do exame e os resultados oferecem uma medida da glicemia durante um período
mais prolongado. Os valores encontrados também fornecem informações
sobre o risco de complicações da doença. O principal problema
dos níveis de HbA1c é a baixa sensibilidade em pacientes com elevações
discretas da glicemia.
Os autores concluem que
níveis de HbA1c maiores que dois desvios-padrão acima da média
são bastante sugestivos de diabetes, mas o diagnóstico exige a
confirmação por uma glicemia plasmática aleatória
maior que 200 mg/dL ou glicemia de jejum acima de 126 mg/dL. Esses exames podem
ser realizados no consultório, medindo-se simultaneamente a glicemia
aleatória e o nível de HbA1c. Em pacientes com alterações
em ambos os exames, confirma-se o diagnóstico de diabetes. Quando apenas
um deles é positivo, a glicemia de jejum pode confirmar o diagnóstico
ou indicar uma intolerância à glicose.
Referência
Barr RG, et al. Tests of glycemia for the diagnosis of type 2 diabetes mellitus.
Ann Intern Med August 20, 2002; 137:263-72.