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Redução nos níveis séricos de hemoglobina glicosilada traz benefícios para todos

A taxa de mortalidade entre os homens com diabetes é mais de duas vezes maior que naqueles sem a doença. Para algumas causas de óbito, como as doenças cardiovasculares e a insuficiência coronariana, esses valores são três a quatro vezes maiores entre os diabéticos, independente da idade ou de outros fatores de risco. Baseado em estudos sobre as complicações microvasculares, como a retinopatia, acredita-se que concentrações de hemoglobina glicosilada (HbA1c) acima de 5% estejam relacionadas ao aumento da mortalidade. Estudos indicam que a relação entre o controle glicêmico e a mortalidade por doenças macrovasculares é diretamente proporcional e contínua; dessa forma, o controle da glicemia é fundamental em todos os pacientes, não apenas naqueles com diagnóstico de diabetes. Khaw e colaboradores realizaram um estudo populacional prospectivo para analisar as concentrações de HbA1c como fator preditivo de óbito por doenças cardiovasculares e outras causas em pacientes do sexo masculino.

Os autores utilizaram os dados de um grande estudo realizado na Inglaterra, que teve início em 1993 e acompanhou 25.600 homens e mulheres entre 45 e 79 anos de idade através de questionários, exame físico e testes laboratoriais. O acompanhamento regular desse grupo possibilitou a descrição da causa de todos os óbitos. Em 1999, encontravam-se disponíveis dados de 4.662 homens cujas concentrações séricas de HbA1c foram analisadas.

Embora apenas 5% da população tenham diabetes, cerca de 70% apresentam níveis de HbA1c entre 5% e 6,9%. A taxa de mortalidade ajustada por idade para todas as causas foi mais de 2,5 vezes maior entre os homens com níveis de (HbA1c) maiores ou iguais a 7%, em comparação com aqueles cujas concentrações séricas eram inferiores a 5% (veja tabela em anexo). As taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares e insuficiência coronariana foram 8,16 e 10,91 vezes maiores, respectivamente. O risco de óbito por essas causas mostrou uma relação direta com a concentração sérica de HbA1c. Os autores calculam que a elevação da concentração de HbA1c em 1% aumenta a mortalidade geral em 29%, em 38% aquela relacionada a doenças cardiovasculares e em 44% os óbitos por insuficiência coronariana, após o ajuste por idade, pressão arterial, níveis de colesterol, índice de massa corpórea, história de tabagismo e antecedente de AVC o infarto agudo do miocárdio. Cerca de 37% do total de óbitos em todo o grupo estudado foram atribuídos ao número elevado de mortes entre os homens com concentrações séricas de HbA1c maiores ou iguais a 5%.

Taxas de mortalidade ajustadas por idade para óbito por todas as causas, doenças cardiovasculares, insuficiência coronariana e doenças não-cardiovasculares de acordo com a concentração de hemoglobina glicosilada e o diagnóstico prévio de diabetes*
     Hemoglobina glicosilada (%)
Causa de óbito
     <5
(n=1204)
     5 a 5.4
(n=1606)
     5.5 a 6.9
(n=1611)
     >=7
(n=81)
     Diagnóstico prévio de diabetes
(n=160)
Todas (n=135):          
Taxa ajustada por idade/100          
(n° de eventos) 1,65 (18) 2,33 (35) 3,43 (61) 4,35 (5) 5,92 (16)
Risco relativo 1,00 1,41 2,07 2,64 3,59
Doença cardiovascular (n=60):          
Taxa ajustada por idade/100          
(n° de eventos) 0,50 (5) 1,27 (19) 1,24 (22) 2,54 (3) 4,11 (11)
Risco relativo 1,00 2,53 2,46 5,04 8,16
Insuficiência coronariana (n=42):          
Taxa ajustada por idade/100 0,31 (3) 0,86 (13) 0,87 (15) 1,63 (2) 3,43 (9)
(n° de eventos) 1,00 2,74 2,77 5,20 10,91
Risco relativo          
Doença não-cardiovascular (n=75):          
Taxa ajustada por idade/100          
(n° de eventos) 1,15 (13) 1,06 (16) 2,19 (39) 1,81 (2) 1,82 (5)
Risco relativo 1,00 0,92 1,91 1,58 1,58

* Em homens entre 45 e 79 anos de idade, entre 1995 e 1999.

Khaw K, Wareham N, Luben R, Bingham S, Oakes S, Welch A, et al. Glycated haemoglobin, diabetes, and mortality in men in Norfolk cohort of European Prospective Investigation of Cancer and Nutrition (EPIC-Norfolk). BMJ 2001;322:16.

Os autores concluem que a concentração de HbA1c é um importante fator preditivo de mortalidade, não havendo limites de valores a serem estabelecidos. Independente de outros fatores de risco, a redução nos níveis de HbA1c apresenta um grande potencial para diminuir a mortalidade nos pacientes do sexo masculino, independente de haver ou não o diagnóstico de diabetes. Os autores calculam que a redução da HbA1c em apenas 0,2% pode diminuir a mortalidade em até 10%. Eles ressaltam que pequenas alterações nos níveis séricos de HbA1c em um grande número de pacientes pode ter um grande impacto sobre a saúde da população, mas que para obter esses resultados é necessário combater a obesidade e o número cada vez maior de pacientes diabéticos.

Referência: Khaw K, et al. Glycated haemoglobin, diabetes, and mortality in men in Norfolk cohort of European Prospective Investigation of Cancer and Nutrition (EPIC-Norfolk). BMJ January 6, 2001;322:15-8.

OBS: Os autores desse artigo especulam que o rastreamento da concentração de HbA1c pode ser incorporado na rotina clínica e que as intervenções para reduzir esses valores, independente do diagnóstico de diabetes, podem ser recomendadas. Conforme lembram, mesmo pequenas alterações no grande número de pacientes com elevação da HbA1c podem trazer muitos benefícios para a população geral. Infelizmente, no entanto, a prevalência do diabetes vem aumentando, e a maioria dos americanos de meia-idade estão cada vez mais obesos. As medidas que promovem uma melhor alimentação e a prática regular de atividade física não são fáceis de serem implementadas e, na maioria das vezes, não parecem recompensadoras para os profissionais de saúde. Entretanto, as mesmas dúvidas existiam em relação ao combate do tabagismo. Pode-se e deve-se ajudar os pacientes a reduzirem os níveis séricos de HbA1c, propiciando uma melhor qualidade de vida através de uma dieta saudável e de exercícios físicos. Caso contrário, será necessário ajudá-los a lidar com as suas conseqüências .

Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br


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