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Rastreamento e abordagem das doenças da tireóide

Os resultados de vários estudos clínicos realizados nos últimos anos têm implicações na abordagem das doenças da tireóide. Nesse artigo, Woeber faz uma revisão desses estudos e apresenta a aplicação deles na prática clínica.

Em 1998, o American College of Physicians publicou as diretrizes para o rastreamento das doenças da tireóide em pacientes atendidos em serviços primários com queixas não relacionadas à tireóide. O rastreamento pode ser importante na identificação dos quadros subclínicos ou sintomáticos do hipotireoidismo e do hipertireoidismo. A dosagem do TSH é recomendada para o rastreamento em mulheres acima de 50 anos de idade. Quando a concentração sérica de TSH é menor que 0,3 a 0,4 µU/mL (0,3 a 0,4 mU/L) ou maior que 10 µU/mL (10 mU/L), recomenda-se a dosagem de tiroxina (T4) livre. Não se recomenda o rastreamento em mulheres abaixo de 50 anos de idade e nos homens, tendo em vista que a prevalência de doenças assintomáticas da tireóide é muito baixa nesses grupos.

As pessoas com hipertireoidismo subclínico (TSH abaixo de 0,3 a 0,4 µU/mL e valores normais de T4 e triiodotironina [T3] livre) apresentam risco elevado de fibrilação atrial, osteoporose e progressão da doença. Não se sabe qual a melhor abordagem dos pacientes sem bócio ou manifestações oculares da doença de Graves, mas os autores recomendam exames repetidos de TSH, T4 e T3 a cada 6 a 12 meses.

Nos casos de hipotireoidismo subclínico (TSH acima de 5 µU/mL [5 mU/L] e T4 normal), existe maior risco de hipercolesterolemia e aparecimento de manifestações clínicas do hipotireoidismo. A eficácia do tratamento do hipotireoidismo subclínico ainda não foi estabelecida; três pequenos estudos não-randomizados apresentaram resultados diferentes. Os indivíduos com níveis de TSH entre 5 e 10 µU/mL devem ser acompanhados. Valores de TSH acima de 10 µU/mL ou a elevação do título de anticorpos anti-tireóide estão associados com um maior risco de complicações, recomendando-se o tratamento com levotiroxina.

O autor observa que estudos anteriores sugerem que a associação de hormônios tireoideanos ao tratamento a longo prazo com metimazol ou propiltiouracil em pacientes com doença de Graves aumenta a probabilidade de remissão quando a terapia com drogas anti-tireoideanas é descontinuada. Mais recentemente, vários estudos randomizados com grande número de pacientes não conseguiram confirmar esse achado. Os autores acreditam que não existe justificativa para o uso concomitante de hormônio tireoideano nesses pacientes, principalmente devido a maior probabilidade de efeitos adversos com as doses mais elevadas de drogas anti-tireoideanas. As evidências favorecem o uso do metimazol em relação ao propiltiouracil. O metimazol está relacionado com maior eficácia terapêutica e a posologia dessa droga é mais fácil, além do menor risco de agranulocitose.

Quanto ao tratamento do hipotireoidismo, o autor afirma que são necessários novos estudos para confirmar a maior eficácia encontrada com a associação da levotriiodotironina antes da sua introdução na prática clínica. As diferenças na potência entre os compostos que contém ambos os hormônios limitam o seu uso. As preparações combinadas podem se tornar o tratamento de escolha no futuro, quando estiverem disponíveis apresentações padronizadas. No entanto, quando não se obtém bons resultados com a levotiroxina isoladamente, o autor acredita que deve-se levar em consideração a substituição de 50 µg da dose diária de levotiroxina por 5 µg de levotriiodotironina duas vezes por dia.

Três estudos demonstraram que a prevalência de carcinoma da tireóide é semelhante (ou seja, em torno de 5%) nos nódulos palpáveis e não-palpáveis. A biópsia por aspiração com agulha fina guiada pela ultrassonografia deve ser realizada nos pacientes com história de irradiação da cabeça, pescoço ou porção superior do tórax, ou com antecedente familiar de carcinoma da tireóide; quando o diâmetro do nódulo é igual ou maior que 1,0 cm; ou quando os achados ultrassonográficos forem suspeitos. Na ausência dessas condições, uma vez que a maioria dos carcinomas ocultos são papilares e raramente apresentam comportamento agressivo, deve-se acompanhar o paciente a cada 6 a 12 meses.

A terapia supressora do TSH em nódulos benignos e únicos da tireóide é controversa. A eficácia desse tratamento na redução do tamanho do nódulo não foi estabelecida. Dados reunidos a partir de sete estudos mostram que o volume do nódulo diminui mais que 50% em 25% dos 242 pacientes estudados que receberam levotiroxina e em 8% dos pacientes no grupo controle. Na opinião do autor, um tratamento supressor do TSH por um ano pode ser iniciado em pacientes mais jovens e continuado quando houver redução no tamanho do nódulo. Em pacientes mais idosos, nos quais a suplementação de hormônios tireoideanos pode diminuir a densidade mineral óssea ou aumentar o risco de fibrilação atrial e hipertrofia cardíaca, os possíveis efeitos adversos da supressão do TSH ultrapassam quaisquer benefícios.

Refeferência:

Woeber KA. The year in review: the thyroid. Ann Intern Med December 21, 1999;131:59-62.

Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br


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