Lipoproteínas ricas em triglicérides e aterogênese
Vários
estudos prospectivos e do tipo caso-controle têm demonstrado uma relação significativa
entre os níveis plasmáticos de triglicérides e risco de cardiopatia isquêmica.
Uma recente meta-análise mostrou que para cada 1 mmol de aumento nos níveis
plasmáticos de triglicérides, o risco de doença coronariana aumenta em 32% para
os homens e 78% para as mulheres. Não há ainda, porém, consenso sobre a importância
da hipertrigliceridemia como fator isolado de risco.
Hipertrigliceridemia aumenta o risco de doença cardiovascular (DCV)
Embora ainda
seja controverso que exista uma relação estatisticamente significativa entre
hipertrigliceridemia e DCV, há evidências suficientes que demonstram que o excesso
de triglicérides amplifica o risco de cardiopatia isquêmica, quando em combinação
com outros fatores de risco, como hipercolesterolemia total ou aumento de LDL.
Como exemplo,
o estudo "Prospective Cardiovascular Munster (PROCAM)" demonstrou que níveis
de triglicérides maiores que 200 mg/dl em conjunção com níveis de LDL maiores
que 160 mg/dl substancialmente aumentavam o risco de DCV. Outro estudo ("Physician's
Health Study") revelou que os pacientes no terço superior da curva de trigliceridemia
(média de 229 mg/dl) e com a relação colesterol total/HDL também no terço superior
(média de 5,7), tinham 3 vezes mais risco de doença coronariana comparados a
indivíduos com trigliceridemia menor ou com relação colesterol total/HDL mais
baixa.
O aumento do
risco para DCV quando estão elevados os triglicérides, a LDL e o colesterol
total, também foi observado no "Helsinki Heart Study", num estudo prospectivo,
randomizado, de 5 anos. Nesse trabalho, a combinação de uma relação alta de
LDL/HDL (>5) e níveis elevados de triglicérides (>204 mg/dl) definiu um subgrupo
de pacientes de alto risco para DCV.
Como a hipertriglireridemia contribui para a aterogênese
Os níveis de
triglicérides podem afetar quantitativa e qualitativamente as lipoproteínas
circulantes e há evidências de que o tamanho e a densidade das lipoproteínas
estão relacionados a sua capacidade de aterogênese. A hipertrigliceridemia está
associada a um excesso de lipoproteínas ricas em triglicérides, como os quilomicrons,
VLDL e IDL (Intermediate Density Lipoproteins). Algumas frações de VLDL podem
estar mais implicadas no aumento do risco de coronariopatia que frações correspondentes
da LDL.
As IDL são
dosadas junto com a LDL e talvez seja esta fração lipoproteica a maior responsável
pelo aumento no risco de DCV observada nos pacientes com níveis elevados de
LDL. Já se demonstrou também que níveis elevados de triglicérides no período
pós-prandial, independentemente dos níveis em jejum, podem estar associados
a um maior risco de doença coronariana.
Lipoproteínas ricas em triglicérides e progressão da aterosclerose
Estudos angiográficos
demonstraram que níveis elevados de lipoproteínas ricas em triglicérides eram
fortes preditores independentes de progressão de aterosclerose da carótida e
da ocorrência de eventos isquêmicos, conforme o estudo de 4 anos de seguimento
"The Monitored Atherosclerosis Regression Study (MARS)". Esse trabalho mostrou
que o nível de partículas pequenas de VLDL era o mais importante preditor de
progressão da doença.
Tomados em
conjunto, esses estudos têm mostrado que as lipoproteínas ricas em triglicérides,
particularmente as partículas pequenas de VLDL e a IDL, estão mais intimamente
relacionadas à progressão da DCV que a LDL, tradicionalmente considerada a lipoproteína
mais aterogênica.
Anormalidades metabólicas associadas com metabolismo alterado de triglicérides
plasmáticos
A combinação
de níveis elevados de triglicérides e baixos de HDL tem sido associada ao conjunto
de anormalidades metabólicas da síndrome de resistência à insulina. A hipertrigliceridemia
também está relacionada a distúrbios no sistema de coagulação, incluindo um
aumento nos níveis séricos do inibidor do ativador do plasminogênio 1 e do fator
VII, o que pode contribuir para um estado de pro-coagulabilidade.
Partículas pequenas e densas de ldl e risco de aterosclerose
Embora os níveis
de LDL geralmente não estejam relacionados com os níveis plasmáticos de triglicérides
ou HDL, já se demonstrou que os níveis de partículas pequenas e densas de LDL,
particularmente da sub-classe III da LDL, se correlacionam diretamente com os
triglicérides e inversamente com a HDL, sugerindo que essas partículas pequenas
e densas possam mediar alguma forma de risco para DCV em pacientes com triglicérides
altos e HDL baixo. Essa associação foi verificada por diversos estudos longitudinais
e prospectivos.
Considerações terapêuticas
Experimentos
clínicos têm demonstrado que o uso de agentes redutores que modifiquem o perfil
dislipidêmico caracterizado por triglicérides e LDL elevados e HDL baixo, traz
beneficio aos pacientes. O estudo "The Veterans Affair HDL Intervention Trial
(VA-HIT)" demonstrou que o tratamento com gemfibrozil, um fibrato que reduz
os triglicérides e aumenta os níveis de HDL, reduziu o número de eventos isquêmicos
em pacientes normocolesterolêmicos com DCV e baixos níveis de HDL. Os fibratos
e o ácido nicotínico demonstraram a capacidade de reduzir os níveis de partículas
pequenas e densas de LDL e mudar as partículas de LDL para um diâmetro maior.
Os estudos
sugerem que o benefício máximo da terapia com redutores de lípides em pacientes
de risco para DCV acontece quando se reduzem os níveis de LDL e se consegue
modificar o perfil aterogênico das lipoproteínas. A combinação de um fibrato
ou do ácido nicotínico com uma estatina pode ser a melhor opção.
Ref.:
American Association of Clinical Endocrinologists - Ninth Annual Meeting and
Clinical Congress July/2.000.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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