Hipertireoidismo subclínico: controvérsias na abordagem
O hipertireoidismo
subclínico é uma entidade cada vez mais reconhecida que é
definida por níveis séricos normais de triiodotironina livre e
tiroxina livre com níveis reduzidos do hormônio estimulador da
tireóide. Os exames de terceira geração que medem os níveis
do hormônio estimulador da tireóide são capazes de detectar
valores de aproximadamente 0,01 µU/mL (0,01 mU/L). O hipertireoidismo
subclínico pode ser uma entidade clínica distinta, relacionada
apenas em parte à doença de Graves ou ao bócio multinodular.
Os pacientes com hipertireoidismo subclínico geralmente não apresentam
sinais ou sintomas específicos associados com a forma clássica
da doença. Uma história clínica detalhada deve ser obtida,
realizando-se exame físico e testes de função tireoideana
para avaliar possíveis efeitos indesejáveis do excesso de hormônio
tireoideano em determinados órgãos (coração e ossos,
por exemplo).
Um problema
na interpretação da literatura sobre o hipertireoidismo subclínico
é a inclusão de pacientes com várias etiologias diferentes.
Acredita-se que as complicações dessa condição estão
relacionadas aos níveis de T3 e T4, e não à causa da doença.
Etiologia e diagnóstico diferencial
Enquanto os
critérios diagnósticos e as modalidades terapêuticas do
hipertireoidismo clássico são bem estabelecidos, a literatura
sobre a forma subclínica da doença é bem menos expressiva.
A fisiopatologia, história natural, prevalência, riscos e evolução
a longo prazo ainda não foram determinadas. Acredita-se que a maioria
dos pacientes de idade avançada com hipertireoidismo subclínico
apresentam bócio multinodular, mas outras condições devem
ser lembradas no diagnóstico diferencial.
A supressão
transitória dos níveis de TSH que retornam ao normal em alguns
meses é provavelmente causada por tireoidite subclínica. A supressão
dos níveis séricos de TSH pode estar relacionada a doenças
não tireoideanas, ao uso da dopamina ou corticosteróides ou à
disfunção hipofisária; portanto, é importante descartar
essas condições. Alterações nos níveis de
TSH podem indicar o desenvolvimento de hipertireoidismo (como na doença
de Graves, bócio multinodular, doença de Hashimoto/Hashitoxicose),
na qual ocorre elevação progressiva dos níveis de T3 e
T4 livre e aparecem os sinais e sintomas clássicos do hipertireoidismo.
A etiologia do hipertireoidismo subclínico também inclui o hipertireoidismo
com tratamento inadequado, o bócio multinodular, a doença de Graves
(em estágios iniciais), o hipertireoidismo relacionado ao iodo, o adenoma
solitário autônomo e a tireoidite (subaguda, subclínica,
pós-parto).
É importante
descartar a administração recente de material de contraste radiológico
ou a exposição ao iodo exógeno, e lembrar de outras causas
de hipertireoidismo (tumores trofoblásticos e ingestão de hormônio
tireoideano exógeno, por exemplo). No hipertireoidismo subclínico,
a captação de iodo radioativo em 24 horas (CIRA) geralmente está
aumentada em pacientes com doença de Graves, bócio multinodular
e nódulo solitário autônomo; por outro lado, será
menor que 5% (valores normais em 24 horas: 5-30%) em pacientes na fase de hipertireoidismo
da tireoidite subaguda, subclínica ou pós-parto, e em pacientes
com ingestão excessiva de hormônios tireoideanos.
Uma dificuldade
na interpretação da literatura relacionada ao hipertireoidismo
subclínico é a inclusão de pacientes com diferentes etiologias.
Acredita-se que a freqüência de complicações do hipertireoidismo
subclínico tenha relação com os níveis de T3 e T4,
e não com a causa da doença. A maioria dos indivíduos com
hipertireoidismo são pacientes ambulatoriais que se encontram em bom
estado geral ou apresentam doenças crônicas estáveis. Os
resultados dos estudos sugerem que o hipertireoidismo subclínico pode
se transformar na forma clássica da doença em cerca de 1 a 3%
dos casos por ano. As alterações nos níveis de TSH podem
ser observadas durante meses ou anos, não se identificando sinais ou
sintomas da doença, associadas a um risco elevado de doenças cardíacas
e alterações da densidade óssea.
Abordagem diagnóstica e acompanhamento
Um algoritmo
clínico (figura 1) mostra a abordagem diagnóstica e recomendações
terapêuticas que devem ser utilizadas nesses pacientes. Após a
história clínica e exame físico inicial, os pacientes suspeita
de hipertireoidismo subclínico sem etiologia definida devem ser reavaliados
com novas dosagens séricas de TSH, T3 e T4. Recomenda-se a monitorização
mensal da função tireoideana por três meses antes de escolher
uma forma de tratamento, mas outros intervalos podem ser utilizados.
Quando a concentração
sérica de TSH persistir baixa, recomenda-se a realização
de um exame de CIRA em 24 horas e uma cintilografia de tireóide (após
descartada a possibilidade de gravidez). Além disso, a ultra-sonografia
da tireóide pode ser indicada em alguns casos para a pesquisa de nódulos
e heterogeneidade da glândula. A ultra-sonografia pode ajudar a identificar
nódulos não palpáveis que devem ser biopsiados e fornecer
informações sobre a presença de linfadenopatia cervical
associada à tireoidite subaguda ou subclínica. Em pacientes selecionados,
com risco elevado de doenças cardíacas ou alterações
ósseas, pode ser necessário solicitar densitometria óssea
e eletrocardiograma. Eventualmente, o Holter de 24 horas pode ser utilizado
para identificar arritmias.
Referências
1. Werner SC, Ingbar SH, Braverman LE, Utiger RD. Subclinical
thyrotoxicosis. In: Braverman LE, Utiger RD, et al., eds. Werner and Ingbar's
The thyroid: a fundamental and clinical text. 7th ed. Lippincott Williams &
Wilkins, 1996.
2. Shrier DK et al. Subclinical Hyperthyroidism: Controversies
in Management. Am Fam Physician 2002; 65:431-8.
3. Cooper DS. Subclinical thyroid disease: a clinician's perspective.
Ann Intern Med 1998;129: 135-8.
|
Avaliação
do hipertireoidismo subclínico |
Avaliação
clínica inicial:
Solicitar dosagem de T3 livre, T4 livre, TSH, HC e perfil metabólico
geral.
Descartar níveis reduzidos de TSH relacionados a doença
hipofisária.* |
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Quando
os exames iniciais revelarem níveis reduzidos de TSH,
repetir a dosagem de T3 livre, T4 livre e TSH mensalmente durante 3 meses.
† |
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Acompanhamento
por 3 meses |
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| Os
níveis de TSH continuam abaixo dos valores normais, na presença
de níveis normais de T3 livre, T4 livre e TSH |
Os
níveis de TSH continuam abaixo dos valores normais |
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| Pacientes
com níveis de TSH maiores iguais a 0,1 µU/mL (0,1 mU/L) |
Pacientes
com níveis de TSH< 0,1 µU/mL ou, principalmente, indetectáveis |
Realizar
CIRA em 24 horas e cintilografia de tireóide (após ß-hCG
recente negativo), ultra-sonografia de tireóide, DO e ECG/Holter,
quando ounecessário‡; pesquisa de anticorpos anti-tireóide
e IET, quando indicada.§ |
|
|
| Acompanhamento
periódico, sem tratamento|| |
Considerar
tratamento¶
1. Drogas anti-tireoideanas (metimazol,
por exemplo)
2. Tratamento com I131
3. Tireoidectomia
4. Acompanhamento contínuo sem tratamento;
HC e perfil metabólico geral recente (bem como ß-hCG,
em alguns casos) são necessários antes de iniciar
o tratamento |
|
|
Pacientes
tratados com drogas anti-tireoideanas devem realizar mensalmente HC, exames
de função hepática e dosagem sérica de T3
livre, T4 livre e TSH por 6 a 12 meses. Além disso, deve-se realizar
exame clínico periodicamente
(a cada três meses, por exemplo). |
|
Após
a normalização dos níveis de TSH por 6 a 12 meses,
deve-se descontinuar a medicação e repetir a avaliação
clínica periodicamente |
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| Níveis
de TSH permanecem normais |
Níveis
reduzidos de TSH com elevação de T3 livre ou T4 livre |
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| Paciente
com doença em remissão; Avaliar periodicamente. |
Considerar
o tratamento definitivo (de preferência com I131, ou com cirurgia).
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Uma
nova tentativa om drogas
anti-tireoideanas pode ser |
|
* -- Raramente,
níveis reduzidos de TSH indicam doença hipofisária causando
hipertireoidismo. Essa possiblidade deve ser lembrada e, quando necessário,
alguns exames devem ser solicitados. Classicamente, os exames são sugestivos
de doença hipofisária quando a redução dos níveis
de TSH ocorre em associação com níveis reduzidos de T4
livre, dependendo de vários fatores, incluindo a duração
da doença. Na avaliação do hipertireoidismo, quando necessária,
a dosagem de T3 livre é mais importante que a concentração
de T3 total.
† --
Para o acompanhamento por três meses, assume-se que não existem
evidências clínicas de progressão da doença (palpitações
ou perda de peso, por exemplo).
‡ --
Antes de realizar a CIRA, deve-se descartar a possibilidade de gravidez. A ultra-sonografia
de tireóide, DO e ECG, e/ou monitorização com Holter devem
ser indicadas em pacientes selecionados (pacientes com palpitações,
taquicardia, nódulos palpáveis de tireóide e aqueles com
risco elevado de perda óssea, por exemplo).
§ --
Em casos selecionados, a pesquisa de anticorpos anti-tireóide e IET pode
ajudar a avaliar a presença de doença tireoideana autoimune. A
aspiração com agulha fina pode ser indicada em pacientes com nódulos
palpáveis ou com nódulos identificados na ultra-sonografia.
|| --
Pode-se levar em consideração o tratamento de pacientes com níveis
de TSH maiores ou iguais a 0,1 µU/mL (0,1 mU/L, mas dentro dos valores
normais), principalmente quando houver sinais ou sintomas, ou condições
que podem ser associadas ou agravadas pelo hipertireoidismo.
¶ --
O tratamento de pacientes com hipertireoidismo subclínico depende de
uma discussão e esclarecimento sobre as opções terapêuticas
com o paciente. Diferentes abordagens podem ser adequadas em casos selecionados.
Em geral, o uso de baixas doses de metimazol (Tapazol, 5 mg/dia) ou propiltiouracil
(50 mg/dia) é suficiente para corrigir os níveis de TSH. Os pacientes
tratados com drogas anti-tireoideanas devem ser esclarecidos sobre os possíveis
riscos do tratamento, incluindo o aparecimento de rash cutâneo, agranulocitose,
elevação de enzimas hepáticas e artralgia.
FIGURA 1.
Avaliação e tratamento do hipertireoidismo subclínico.
(T3 = triiodotironina; T4 = tiroxina; TSH = hormônio estimulador da tireóide;
HC = hemograma completo; CIRA = captação de iodo radioativo; ß-hCG
= subunidade beta da gonadotrofina humana coriônica; DO = densitometria
óssea; ECG = eletrocardiograma; IET = imunoglobulina estimulante da tireóide)
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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