Diagnósticos e classificação do diabetes mellitus e tratamento do diabetes mellitus tipo 2 – Recomendações da Sociedade Brasileira de Diabetes
1. Introdução
Nos últimos anos houve avanços
importantes no estabelecimento de critérios diagnósticos do diabetes
mellitus (DM) e no conhecimento de novas estratégias de tratamento. Entretanto,
muitas destas informações não estão ainda suficientemente
consolidadas, dificultando ao médico clínico, que atende pacientes
diabéticos, tomar decisões fundamentadas nos preceitos modernos
da terapêutica. Atualmente, é desejável que cada tratamento
seja fundamentado em estudos do tipo randomizado, controlado com desfechos bem
definidos e com número suficiente de pacientes para responder às
perguntas formuladas. A doença cardiovascular é a principal responsável
pela redução da sobrevida de pacientes diabéticos, sendo
a causa mais freqüente de mortalidade. Idealmente, a eficácia de
um tratamento deve ser medida em termos de redução de mortalidade.
Estudos que avaliam este desfecho envolvem um grande número de pacientes,
são longos e dispendiosos. Em relação ao tratamento do
DM tipo 2, o estudo mais importante nesta linha é o United Kingdom Prospective
Diabetes Study (UKPDS) que analisou se o controle rigoroso da hiperglicemia
e da hipertensão arterial era capaz de reduzir as complicações
do DM e a mortalidade. No entanto, este estudo não respondeu a uma série
de perguntas, sendo necessária uma análise complementar cuidadosa
dos dados apresentados. Novos medicamentos foram introduzidos no mercado, porém
o tempo e a ausência de estudos randomizados controlados ainda não
permitiram que sua eficácia fosse suficientemente examinada. Estes atuam
por diferentes mecanismos de ação no controle da hiperglicemia
ou apresentam algum aspecto vantajoso sobre os demais em termos de menos efeitos
colaterais ou efeitos benéficos adicionais à ação
redutora da glicemia.
O aumento da mortalidade cardiovascular
dos pacientes diabéticos está relacionada ao estado diabético
per se e à agregação de vários fatores de risco
cardiovasculares, como obesidade, hipertensão arterial (HA) e dislipidemia
entre outros. O esquema terapêutico do DM deve também levar em
consideração a presença destes fatores de risco.
A HA é cerca de duas vezes
mais freqüente entre os indivíduos diabéticos quando comparados
à população geral. Estão amplamente comprovados
os benefícios do tratamento anti-hipertensivo, reduzindo a incidência
e a mortalidade por doença cardiovascular, tanto na população
geral como na diabética. O tratamento da HA sistólica isolada
em pacientes com DM tipo 2 também diminui significativamente o risco
de eventos cerebrovasculares
A dislipidemia é um dos principais
fatores de risco para doença cardiovascular em pacientes diabéticos,
cuja influência é maior que os demais. As alterações
lipídicas mais freqüentes na população diabética
são a hipertrigliceridemia, HDL-colesterol (HDL-c) baixo e alterações
qualitativas nas lipoproteínas, tais como a formação de
partículas de LDL-colesterol (LDL-c) pequenas e densas. O LDL-c denso
é mais freqüente na circulação quanto mais elevados
forem os níveis de triglicérides, sendo mais aterogênico
do que as demais partículas lipídicas que são maiores e
menos densas.
2. Conceito
O DM é uma síndrome
de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou da incapacidade
da insulina de exercer adequadamente seus efeitos. Caracteriza-se por hiperglicemia
crônica com distúrbios do metabolismo dos carboidratos, lipídios
e proteínas. As consequências do DM a longo prazo incluem danos,
disfunção e falência de vários órgãos,
especialmente rins, olhos, nervos, coração e vasos sangüíneos.
Com freqüência os sintomas clássicos (perda inexplicada de
peso, polidipsia e poliúria) estão ausentes, porém poderá
existir hiperglicemia de grau suficiente para causar alterações
funcionais ou patológicas por um longo período antes que o diagnóstico
seja estabelecido. Antes do surgimento de hiperglicemia mantida, acompanhada
do quadro clínico clássico do DM, a síndrome diabética
passa por um estágio de distúrbio do metabolismo da glicose, caracterizado
por valores glicêmicos situados entre a normalidade e a faixa diabética.
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Classificação
do diabetes mellitus |
Tipo 1:
destruição da célula beta, geralmente ocasionando
deficiência absoluta de insulina, de natureza auto-imune ou idiopática.
Tipo 2:
varia de uma predominância de resistência insulínica
com relativa deficiência de insulina, a um defeito predominantemente
secretório, com ou sem resistência insulínica.
Outros tipos
específicos:
- defeitos genéticos
funcionais da célula beta
- defeitos genéticos
na ação da insulina
- doenças
do pâncreas exócrino
- endocrinopatias
- induzidos por fármacos
e agentes químicos
- infecções
- formas incomuns
de diabetes imuno-mediado
- outras síndromes
genéticas geralmente associadas ao diabetes
- Diabetes gestacional
|
Princípios
gerais e objetivos do tratamento
O tratamento do DM inclui as seguintes
estratégias: educação, modificações do estilo
de vida que incluem a suspensão do fumo, aumento da atividade física
e reorganização dos hábitos alimentares e, se necessário,
uso de medicamentos.
O tratamento concomitante de outros fatores de risco cardiovascular é
essencial para a redução da mortalidade cardiovascular. O paciente
deve ser continuamente estimulado a adotar hábitos de vida saudáveis
(manutenção de peso adequado, prática regular de exercício,
suspensão do fumo e baixo consumo de bebidas alcoólicas). Mudança
no estilo de vida é difícil de ser obtida, mas pode ocorrer se
houver uma estimulação constante ao longo do acompanhamento, não
apenas na primeira consulta. Isto é particularmente importante, por que
o UKPDS demonstrou que após o aparecimento do DM há uma piora
progressiva e inexorável do controle glicêmico, independente do
empregos de agentes anti-hiperglicêmicos.
Educação
alimentar
A educação alimentar
é um dos pontos fundamentais no tratamento do DM. Não é
possível um bom controle metabólico sem uma alimentação
adequada. Nos últimos anos houve consideráveis modificações
nas recomendações nutricionais para indivíduos com DM.
Tratamento
da obesidade
Considerando a freqüente associação
do excesso de peso nos pacientes diabéticos, o tratamento "agressivo"
da obesidade é parte essencial do manejo dos pacientes diabéticos.
Pequenas reduções de peso (5 a 10%) se associam a melhora significativa
nos níveis pressóricos e nos índices de controle metabólico
e reduzem a mortalidade relacionada ao DM.
Tratamento
Medicamentoso da Hiperglicemia
Os medicamentos antidiabéticos
devem ser empregados quando não se tiver atingido os níveis glicêmicos
desejáveis após o uso das medidas dietéticas e do exercício.
Uso de
Insulina
Alguns pacientes diabéticos
tipo 2 irão necessitar de terapia insulínica logo após
o diagnóstico e muitos ao longo do tratamento. Quando houver indicação
para insulinoterapia no diabetes gestacional e situações de uso
transitório de insulina (como nas intercorrências médicas),
a humana deve ser sempre utilizada. Nas demais situações, sempre
que possível, deve ser dada preferência à insulina humana.
O emprego da insulina está associado a aumento de peso e à presença
de reações hipoglicêmicas.
Medicamentos antidiabéticos Orais
Os medicamentos antidiabéticos
orais estão descritos no Quadro
| Medicamentos
antidiabéticos: mecanismo de ação e efeito clínico |
|
Medicamento |
Mecanismo
de ação |
Redução
daglicemia de jejum (mg/dl) |
Redução
daglico-hemoglobina (%) |
Efeito
sobre o peso corporal |
| Sulfoniluréias,
repaglinida* e nateglinida* |
Aumento
da secreção de insulina |
60
– 70 |
1,5
– 2,0 |
Aumento |
| Metformina |
Aumento
da sensibilidade à insulina predominantemente no fígado |
60
–70 |
1,5
– 2,0 |
Diminuição |
Acarbose
|
Retardo
da absorção de carboidratos |
20
– 30 |
0,7
– 1,0 |
Sem
efeito |
Tiazolidinedionas
|
Aumento
da sensibilidade à insulina no músculo |
35
– 40 |
1,0
-1,2 |
Aumento |
| * Atuam
predominantemente na redução da glicemia pós-prandial.
Podem reduzir a glicemia de jejum a médio e longo prazo. |
Sulfoniluréias
Estimulam a secreção
de insulina ligando-se a um receptor específico na célula b que
determina fechamento dos canais de potássio dependentes de ATP, resultando
em despolarização da célula. Diminuem a glicose plasmática
da ordem de 60 a 70 mg/dl e da glico-hemoglobina de 1,5 a 2,0 pontos percentuais
em pacientes com níveis de glicose plasmática acima de 200 mg/dl.
Em cerca de 25% destes casos, especialmente aqueles com DM de início
recente e valores de glicose entre 220 a 240 mg/dl, as sulfoniluréias
poderão reduzir os níveis de glicose plasmática aos desejáveis.
Esta categoria compreende diversos
compostos: clorpropamida, glibenclamida, glipizida, gliclazida e glimepirida.
Metformina
É um composto do grupo das
biguanidas que aumenta a sensibilidade da insulina nos tecidos periféricos,
principalmente no fígado. A redução da glicemia provocada
pela metformina se deve especialmente à diminuição da produção
hepática de glicose. A magnitude de queda da glicose plasmática
em jejum e da glico-hemoglobina é semelhante à das sulfoniluréias.
A metformina, quando associada a sulfoniluréias, determina um efeito
hipoglicemiante aditivo. Não está associada a aumento de peso,
podendo, inclusive ,determinar uma diminuição de dois a três
quilos durante os primeiros seis meses de tratamento. Reduz os níveis
de triglicérides de 10 a 15% e do inibidor-1 do ativador do plasminogênio.
No UKPDS a metformina foi a única medicação que determinou
uma diminuição significativa da incidência de complicações
cardiovasculares em pacientes obesos, inclusive infarto do miocárdio
e morte.
Os efeitos adversos mais freqüentes
são desconforto abdominal e diarréia, que são usualmente
leves e transitórios.
Acarbose
É um inibidor de a -glicosidases
intestinais (maltase, isomaltase, sacarase, glicoamilase), retardando a absorção
de carboidratos e, conseqüentemente, a entrada da glicose na circulação.
Isto permite que a célula b com menor capacidade de produzir insulina
tenha mais tempo para secretar insulina e metabolizar a glicose absorvida. A
acarbose não causa má-absorção. Seu principal efeito
ocorre sobre a glicemia pós-prandial (40 a 50 mg/dl), sem provocar hiperinsulinemia
e, portanto, sem causar hipoglicemia. O efeito de redução da glicemia
de jejum é da ordem de 25 a 30 mg/dl. Além disso, diminui de modo
consistente a trigliceridemia pós-prandial em cerca de 20%. Este medicamento
é particularmente útil em pacientes diabéticos que permanecem
com hiperglicemia moderada (125 a 150 mg/dl) apesar da dieta e exercício,
logo após o diagnóstico como monoterapia, ou naqueles com glicemia
de jejum próxima dos valores aceitáveis, porém com glico-hemoglobina
aumentada, ou ainda durante o tratamento com sulfoniluréias e/ou metformina.
A acarbose não provoca aumento de peso, podendo diminuí-lo em
doses elevadas. No tratamento conjunto com sulfoniluréia e/ou insulina,
a acarbose atenua o ganho de peso que comumente ocorre. Os efeitos adversos
mais freqüentes são gastrointestinais - meteorismo, desconforto
abdominal, flatulência e diarréia em cerca de 30% dos pacientes
- que diminuem com o uso continuado, não existindo efeitos sistêmicos
indesejáveis. Iniciando o tratamento com doses baixas de 25 mg nas refeições,
ajuda a tornar tais efeitos menos intensos. Constitue-se em opção
terapêutica segura para idosos, já que não são descritas
interações medicamentosas com outros fármacos freqüentemente
empregados por esta população.
Repaglinida
É um derivado do ácido
benzóico que estimula a secreção de insulina na presença
de glicose. Liga-se a receptores na célula b , diferentes dos receptores
das sulfoniluréias. Não se sabe se o seu efeito hipoglicemiante
é aditivo ao das sulfoniluréias. Sua ação é
mais rápida e mais curta quando comparados a este grupo de agentes antidiabéticos;
não se sabe se o seu efeito hipoglicemiante é aditivo ao da sulfoniluréia.
Nateglinida
É um derivado da D-fenilalanina,
que atua através do aumento da sensibilidade da célula beta à
glicose plasmática. Liga-se a receptores na célula b , diferentes
dos receptores das sulfoniluréias, produzindo despolarização
da membrana, entrada de cálcio e exocitose de grânulos de insulina
(efeito "insulinotrópico"). Sua absorção gastrointestinal
se faz rapidamente, devendo, portanto, ser administrada minutos antes das refeições.
A literatura ainda carece de experiência consistente com este novo grupo
de agentes antidiabéticos.
Tiazolidinedionas
Esta classe de agentes engloba três
compostos: troglitazona, rosiglitazona, e pioglitazona. Atuam aumentando a sensibilidade
à ação da insulina no tecido muscular, hepático
e adiposo. Desta forma, favorecem o consumo de glicose pelos tecidos periféricos
(muscular e adiposo) e diminuem a produção hepática de
glicose. As tiazolidinedionas ligam-se a um receptor nuclear proliferador ativado
dos peroxisomas g , levando a um aumento da expressão dos transportadores
de membrana de glicose (GLUT4).
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