Abordagem diagnóstica dos nódulos tireoideanos e do bócio nodular
Embora o exame
físico seja importante na avaliação da tireóide,
sua capacidade de detectar precocemente as lesões malignas é limitada.
A palpação é pouco sensível para o diagnóstico
de nódulos, geralmente identificando lesões maiores que 1 cm e
não sendo capaz de distinguir nódulos benignos e malignos.
Exames laboratoriais
Os exames
de função tireoideana devem ser realizados, embora os resultados
geralmente sejam normais. Os níveis do hormônio estimulante da
tireóide (TSH, sigla em inglês) são importantes para orientar
a próxima etapa na investigação diagnóstica. A pesquisa
de anticorpos anti-tireoideanos também pode ser útil. Alguns estudos
sugerem que a dosagem dos níveis séricos de calcitonina deve ser
solicitada. Nós recomendamos esse exame apenas para pacientes com risco
elevado de carcinoma medular da tireóide. Os níveis séricos
de tireoglobulina podem estar elevados em condições benignas e
malignas, geralmente não sendo útil para o diagnóstico.
Entretanto, esse exame pode ser importante após a confirmação
do diagnóstico de câncer de tireóide.
Exames radiológicos
Deve-se realizar
uma radiografia de tórax. Uma comparação entre os diferentes
métodos de imagem pode ser encontrada na Tabela 3. Esses exames geralmente
têm custo elevado e não são importantes para diferenciar
lesões benignas e malignas da tireóide.
Ultra-sonografia da tireóide
A ultra-sonografia
com aparelhos de alta resolução é o método de imagem
de escolha na avaliação da morfologia da tireóide, tendo
em vista ser um exame não-invasivo, seguro, confiável, relativamente
de baixo custo e mais sensível que o exame físico ou outros métodos
de imagem. A ultra-sonografia é capaz de identificar lesões sólidas
com até 3 mm de diâmetro e lesões císticas de aproximadamente
1 mm de diâmetro, conseguindo diferenciar nódulos sólidos
(aproximadamente 70% dos nódulos), císticos ou complexos. Nódulos
ocultos, portanto, podem ser detectados com esse método. Essas lesões
geralmente são benignas e a indicação de punção
aspirativa por agulha fina (PAAF) deve ser individualizada. A ultra-sonografia
de alta resolução demonstra uma prevalência de nódulos
entre 19-46% na população geral (nódulo único em
cerca de 19,6% e múltiplos nódulos em aproximadamente 21,5% da
população). A ultra-sonografia também pode ser importante
permitindo reduzir o número de novos exames desnecessários.
Em um estudo,
a ultra-sonografia de tireóide revelou achados diferentes daqueles encontrados
no exame físico em 63% dos pacientes. Portanto, nenhum exame adicional
deve ser solicitado em pacientes com ultra-sonografia normal. Em pacientes com
suspeita de nódulo único no exame físico, a ultra-sonografia
identifica múltiplos nódulos em 20-50% dos casos.
Embora esse
método de imagem forneça detalhes anatômicos da tireóide,
na maioria dos casos não é capaz de diferenciar lesões
benignas e malignas. Para a avaliação de nódulos tireoideanos
ocultos com aspecto ultra-sonográfico suspeito ou indeterminado, é
necessário realizar a PAAF guiada pela ultra-sonografia. Além
disso, a ultra-sonografia pode ser importante em pacientes que não desejam
realizar a PAAF, que utilizam anticoagulantes, ou no rastreamento de pacientes
com antecedente de irradiação da cabeça e pescoço.
A ultra-sonografia
é um método excelente para diferenciar lesões sólidas
e císticas. Em comparação com a cintilografia, fornece
maiores detalhes anatômicos. Entre os nódulos sólidos, cerca
de 15% podem ser malignos, em comparação com 5% dos nódulos
císticos. A prevalência de malignidade em lesões císticas
menores que 4 cm sem componente sólido é inferior a 1%, em comparação
com 15% nos cistos complexos. O método também é importante
por permitir acompanhar alterações nas lesões identificadas
(degeneração cística, por exemplo).
Em geral,
os nódulos benignos são hiperecogênicos e têm um grande
componente cístico, calcificações periféricas ("em
casca de ovo"), halo hipoecogênico e limites bem definidos; os nódulos
malignos, por outro lado, geralmente são hipoecogênicos, mal delimitados
e podem apresentar microcalcificações. A presença de microcalcificações
em nódulos tireoideanos pode estar associada a um maior risco de malignidade.
Múltiplas pequenas calcificações puntiformes (corpos psamomatosos)
são altamente sugestivas de carcinoma papilífero da tireóide.
As calcificações grosseiras podem ser encontradas em cistos e
nos adenomas em degeneração.
Cintilografia
da tireóide
A cintilografia da tireóide
é um exame geralmente de custo mais elevado que a ultra-sonografia e
sua importância na identificação de nódulos quentes
e áreas de funcionamento autônomo da glândula é bem
estabelecida. Os nódulos quentes representam menos de 10% dos nódulos
clinicamente evidentes. A maioria dos nódulos frios são benignos.
Tendo em vista que a maioria das neoplasias da tireóide são hipofuncionantes,
a cintilografia não é um método sensível nem específico
para diferenciar nódulos benignos e malignos. Os estudos com radiofármacos
geralmente são indicados na presença de níveis reduzidos
de TSH. O exame é realizado com radioisótopos iodados ou com pertecnetato
de tecnécio 99m. Em comparação com os radioisótopos
iodados, que são captados e armazenados sob a forma de tireoglobulina,
o pertecnetato é captado, mas não sofre organificação
ou armazenamento. Por esse motivo, deve-se dar preferência ao estudo com
iodo como exame inicial. Em geral, os nódulos funcionantes no exame com
pertecnetato devem ser reavaliados com o exame utilizando iodo. Alguns médicos
consideram a possibilidade de utilizar exames com supressão para investigar
nódulos indeterminados. Os níveis de TSH são medidos após
a administração de tiroxina. Na presença de níveis
reduzidos de TSH, a persistência de captação sugere a presença
de tecido autônomo. A correspondência anatômica dessa área
de captação com a localização do nódulo pode
ser considerada uma evidência de um processo benigno. O exame com supressão
não é aconselhável em pacientes com doença cardíaca
ou idade avançada.
Ressonância
Magnética e Tomografia Computadorizada
A ressonância magnética
(RM) é um método superior à ultra-sonografia na avaliação
do bócio mergulhante. Não envolve radiação ionizante,
não é um método invasivo e é bem tolerada pelos
pacientes, embora tenha custo relativamente elevado. Ao contrário do
meio de contraste utilizado na tomografia computadorizada (TC), o contraste
empregado na RM não altera a função tireoideana. A TC fornece
informações anatômicas da tireóide e suas relações
com as estruturas adjacentes. A concentração elevada de iodo na
tireóide proporciona uma hiperatenuação da glândula
em relação aos tecidos adjacentes nos exames de TC, possibilitando
a identificação da extensão da glândula para o mediastino.
A RM e a TC têm papel limitado na avaliação da tireóide,
tendo em vista que não permitem diferenciar lesões benignas e
malignas e apresentam custo elevado.
Punção
aspirativa por agulha fina
A punção
aspirativa por agulha fina (PAAF) de nódulos tireoideanos tornou-se o
exame diagnóstico básico. Muitos defendem o método na avaliação
inicial por apresentar um boa relação custo-benefício,
mostrando-se um exame melhor que a ultra-sonografia na abordagem inicial dos
nódulos tireoideanos. Na maioria dos casos, a PAAF é um bom exame
para determinar a necessidade de intervenção cirúrgica.
Cerca de 85% dos procedimentos permitem coletar material suficiente para o diagnóstico.
Entre os exames com material considerado suficiente para o diagnóstico,
a sensibilidade e especificidade são de 93% e 96%, respectivamente, com
taxas de falso-positivo e falso-negativo menores que 4%. Os resultados das punções
indicam que aproximadamente 60% dos nódulos tireoideanos são benignos,
29,5% são indeterminados e 3,4% são malignos.
A PAAF guiada pela ultra-sonografia é uma alternativa que pode ser utilizada
em lesões ocultas, devendo ser reservada para grupos de risco elevado
(levando-se em consideração os achados clínicos, os exames
de imagem ou história suspeita). A transformação de nódulos
benignos em malignos é rara. Embora pequenos cistos geralmente sejam
lesões benignas, pode-se realizar a PAAF guida por ultra-sonografia em
lesões menores que 1 cm. O líquido puncionado sempre deve ser
enviado para exame citológico. Os cistos que reaparecem após a
punção aspirativa raramente são malignos.
Achados
relacionados a um maior risco de malignidade em nódulos da tireóide
Nódulo único,
hipocogênico
Nódulo frio (hipocaptante
na cintilografia)
Cistos > 4 cm de
diâmetro ou cistos complexos
Nódulo de crescimento
rápido, nódulo dominante significativamente maior que os outros,
ou nódulo que apresenta crescimento apesar do tratamento com hormônios
tireoideanos
Linfonodomegalia ipsolateral
Nódulo de limites
mal definidos, endurecido, irregular, aderido aos planos profundos
Invasão da cápsula
ou de vasos sangüíneos, ou metástases
Microcalcificações
Disfonia com paralisia
de corda vocal
Idade < 40 anos
Sexo masculino
Mulheres em idade reprodutiva
(fatores hormonais: gestação, multiparidade)
Antecedente de exposição
à radiação (exposição em idade jovem, baixa
dose de radiação, parente de 1º grau com tumor relacionado
a exposição à radiação)
Síndrome neoplásica
hereditária (polipose adenomatosa do cólon, neoplasia endócrina
múltipla tipo 2), doença de Cowden
Comparação entre os exames diagnósticos
|
Exame
|
Vantagens
|
Desvantagens |
| PAAF |
Permite
estabelecer o diagnóstico definitivo de malignidade |
Pequeno
desconforto local |
| |
Acurácia
diagnóstica >90%
|
Menos confiável
em lesões císticas |
| |
|
Deve
ser realizada por médicos experientes |
| Ultra-sonografia
|
Permite
guiar a PAAF |
Operador-dependente |
| |
Permite acompanhar o tamanho do nódulo tireoideano
|
Sensibilidade
elevada para a pesquisa de nódulos |
| |
Permite
identificar a textura e natureza da lesão (homogênea X heterogênea,
cística X sólida) |
Não
é um bom método para a avaliação do bócio
mergulhante (retroesternal) |
| |
Custo menor que outros métodos de imagem |
Não
define claramente a anatomia entre a tireóide e as estruturas adjacentes |
| |
|
Não
permite estabelecer o diagnóstico definitivo de lesão maligna |
| Cintilografia
(99mTc) |
Tempo de
meia-vida curto (6h) |
Exposição
à radiação |
| |
Baixas
doses de radiação |
Custo elevado |
| |
Boa disponibilidade
|
Exame limitado
para a pesquisa de lesões localizadas na periferia ou istmo da glândula |
| |
Não
é armazenado ou organificado na tireóide |
Nódulos
frios podem ser mascarados pela presença de tecido normal adjacente |
| |
|
Não
permite estabelecer o diagnóstico definitivo de lesão maligna |
| Cintilografia
(123I) |
Menos
radiação que o exame com 131I |
Exposição
à radiação |
| |
Tempo
de meia-vida curto (13 h) |
Custo elevado |
| |
Permite
a avaliação da região retroesternal |
Valor
diagnóstico limitado (captação de pequena quantidade
de iodo marcado em relação à grande quantidade de iodo
encontrada na dieta) |
| |
Determina focos susceptíveis ao 131I |
Exame
limitado para a pesquisa de lesões localizadas na periferia ou istmo
da glândula |
| |
|
Nódulos
frios podem ser mascarados pela presença de tecido normal adjacente |
| |
|
Não
permite estabelecer o diagnóstico de lesão maligna |
| Cintilografia
(131I) |
Permite
a avaliação da região retroesternal |
Emprego
de radiação gama de alta energia (qualidade da imagem inferior
àquela obtida com o 123I ou 99mTc) |
| |
Tempo
de meia-vida de 8 dias, permitindo a repetição do exame alguns
dias depois |
Custo elevado |
| |
|
Valor
diagnóstico limitado (captação de pequena quantidade
de iodo marcado em relação à grande quantidade de iodo
encontrada na dieta) |
| |
|
Exame limitado
para a pesquisa de lesões localizadas na periferia ou istmo da glândula |
| |
|
Nódulos
frios podem ser mascarados pela presença de tecido normal adjacente |
| |
|
Não
permite estabelecer o diagnóstico de lesão maligna |
| TC
ou SPECT |
Exame
sem contraste útil na avaliação do bócio multinodular
|
Custo
elevado |
| |
Método
tridimensional, útil na avaliação de pacientes com
sintomas compressivos |
Não
permite estabelecer o diagnóstico de lesão maligna |
| |
A
atenuação do tecido rico em iodo ajuda a identificar lesões
metastáticas profundas |
|
| RM |
Método
tão bom quanto a TC
|
Custo elevado |
| |
Permite
avaliar a região retroesternal |
Não
permite estabelecer o diagnóstico de lesão maligna |
| |
O contraste
com gadolíneo não altera a função tireoideana
|
|
| |
Não
utiliza radiação ionizante
|
|
| |
Método
não invasivo |
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PAAF = punção
aspirativa por agulha fina, TC = tomografia computadorizada, = SPECT = sigla,
em inglês, de single photon emission computed tomography, RM = ressonância
magnética.
Referência
South Med J 95(5):514-519, 2002.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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