Cerca de 80% dos óbitos relacionados à
doença coronariana (DC) ocorrem em pacientes acima de 65 anos, representando
a principal causa de morte nesse grupo etário. Pelo menos 25% dos homens
e 42% das mulheres acima de 65 anos apresentam níveis de colesterol total
acima de 240 mg/dL. Entretanto, a relação entre níveis
elevados de colesterol e DC não é tão evidente em pacientes
idosos como nos indivíduos jovens, e os benefícios da redução
dos níveis de colesterol não foram claramente demonstrados em
pacientes idosos. Dalal e Robbins realizaram uma revisão sobre as evidências
dos benefícios do tratamento medicamentoso da hiperlipidemia nesses pacientes.
Os autores analisaram dados de 4 estudos sobre
prevenção secundária da DC que incluíram um número
significativo de indivíduos acima de 65 anos de idade. O Scandinavian
Simvastatin Survival Study acompanhou mais de 1000 pacientes durante 6
anos e identificou uma redução de 33% na taxa de mortalidade geral,
42% na mortalidade por DC e 33% menos eventos coronarianos graves no grupo analisado.
A redução do risco absoluto foi de 6,2%, estimando-se a prevenção
de 10 óbitos relacionados à DC e 17 eventos cardiovasculares graves
por 1000 pacientes-ano de tratamento. Resultados semelhantes foram demonstrados
pelo Cholesterol and Recurrent Events Trial, no qual 1283 pacientes
com DC foram tratados com pravastatina durante 5 anos, e o Long-term Intervention
with Pravastatin in Ischemic Disease (LIPID) Trial, onde 3512 pacientes
foram acompanhados por 6 anos.
A partir dos dados encontrados nesses estudos
e no Veterans Affairs Study que acompanhou pacientes do sexo masculino
com DC e fatores de risco para a doença, os autores concluem que a prevenção
secundária da DC utilizando drogas para o tratamento da hiperlipidemia
em pacientes acima de 65 anos é uma abordagem eficaz e não provoca
elevação na mortalidade ou causa eventos adversos significativos.
Eles recomendam o uso de estatinas como drogas de primeira linha, sugerindo
o emprego de quelantes de ácidos biliares como uma alternativa em pacientes
que não apresentam níveis elevados de triglicerídeos. As
evidências dos benefícios do tratamento são menos claras
em pacientes com mais de 75 anos, nos quais as condições gerais
de saúde e a presença de comorbidades devem ser levadas em consideração.
Em relação à prevenção
primária em pacientes idosos, o National Cholesterol Education Program
recomenda em primeiro lugar a implementação de mudanças
no estilo de vida, tendo em vista o desconhecimento da eficácia e a preocupação
com efeitos adversos dos medicamentos utilizados no tratamento da hiperlipidemia.
Dois grandes estudos sobre prevenção primária que incluíram
um número significativo de pacientes idosos concluíram que essa
abordagem oferece benefícios aos pacientes desse grupo etário.
O West of Scotland Coronary Prevention Study analisou 3370 pacientes
do sexo masculino acima de 55 anos que utilizaram a pravastatina. Após
5 anos, o tratamento implicou em uma redução de 22% na mortalidade
geral e 31% nos eventos coronarianos. A incidência de primeiros eventos
coronarianos graves também foi menor (redução de 37% após
5,2 anos de acompanhamento) no Air Force/Texas Coronary Atherosclerosis
Prevention Study, que analisou 1416 pacientes entre 65 e 73 anos que utilizaram
a lovastatina. Nesses estudos e em outros menores, o uso de medicamentos demonstrou
ser eficaz na prevenção da DC sem relação com eventos
adversos significativos.
Os autores concluem que o tratamento da hiperlipidemia
deve ser levado em consideração em pacientes entre 65 e 75 anos
de idade com história de DC ou risco moderado ou elevado de DC. Em pacientes
com mais de 75 anos, a decisão terapêutica deve ser individualizada
com base na expectativa de vida, comorbidades e outros fatores individuais.
| Estratégia
de prevenção da DC primária em pacientes idosos |
| Níveis
da fração LDL do colesterol |
Número de fatores de risco |
Objetivo
|
Considerações
terapêuticas |
| Risco
intermediário |
| 130 a 159 mg/dL |
<2 |
<130 mg/dL |
Mudanças no estilo
de vida*, evitando-se o uso de medicamentos
|
| (3,37 a 4,12 mmol/L) |
>=2 |
<130 mg/dL |
Mudanças no estilo
de vida, devendo-se levar em consideração a possibilidade
do emprego de estatinas em pacientes com diabetes ou DVP |
| Risco
moderadamente elevado
|
| 160 a 189 mg/dL |
<2 |
<160 mg/dL |
Mudanças intensas
no estilo de vida†, devendo-se utilizar estatinas em baixas doses
quando necessário. |
| (4,14 a 4,90 mmol/L) |
>=2 |
<130 mg/dL |
Mudanças intensas
no estilo de vida, devendo-se levar em consideração a possibilidade
do emprego de estatinas ou quelantes de ácidos biliares. |
| Risco
elevado
|
| >=190 mg/dL |
<2 |
<160 mg/dL |
Mudanças intensas
no estilo de vida, devendo-se levar em consideração a possibilidade
do emprego de estatinas, quelantes de ácidos biliares, fibratos ou
niacina, quando o paciente apresentar níveis elevados de triglicerídeos. |
| (4,92 mmol/L) |
>=2 |
<130 mg/dL |
Mudanças intensas
no estilo de vida, devendo-se levar em consideração a possibilidade
do emprego de estatinas, quelantes de ácidos biliares, fibratos ou
niacina, quando o paciente apresentar níveis elevados de triglicerídeos. |
DC = doença
coronariana; LDL = sigla, em inglês, de lipoproteína
de baixa densidade; DVP = doença vascular periférica
(*) Mudanças
no estilo de vida incluem a dieta do 1º passo da American
Heart Association (AHA), controle do peso, atividade física
regular e parar de fumar.
† Mudanças
intensas no estilo de vida incluem a dieta do 2º passo da AHA, controle
de peso com supervisão médica, atividade física regular
e parar de fumar. |
Referência
Dalal D, Robbins JA. Management of hyperlipidemia in the elderly population:
an evidence-based approach. South Med J November 2002;95:1255-61.