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Receita para um coração saudável

Dr. Protásio Lemos da Luz

- Diretor da Divisão de Cardiologia Clínica - InCor/HC-FMUSP
- Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências
- Professor Associado pela FMUSP

A importância do reconhecimento precoce da aterosclerose

A aterosclerose humana tem algumas características fundamentais : começa muito cedo na vida, seguramente na maioria dos casos, na adolescência e na ídade adulta jovem; é sistêmica, comprometendo artérias como coronárias, carótidas, aorta e membros inferiores; tem um longo período assintomático, que pode durar décadas; suas manifestações clínicas mais comuns são eventos cardiovasculares, especialmente angina, infarto do miocárdio, morte súbita, insuficiência cardíaca e acidentes vasculares cerebrais.

>> Lesões aos 15 anos

Vários estudos de necropsia em adolescentes e adultos jovens que morreram de morte violenta (acidentes, homicídios, suicídios) documentaram a presença de lesões ateroscleróticas em diferentes graus de evolução em indivíduos entre 15 e 35 anos de idade, inteiramente assintomáticos. As lesões variavam entre estrias gordurosas iniciais até placas fibrosas mais avançadas. Mesmo soldados americanos que haviam sido previamente examinados e considerados aptos para o serviço militar apresentavam tais lesões, algumas até com avançados graus de estenoses coronárias. As placas ocupavam tanto a aorta como as artérias coronárias Observou-se também que o grau de comprometimento dos vasos era diretamente relacionado à presença de fatores de risco comuns, tais com o hipertensão, obesidade , exposição a fumo , etc. Apesar desse início precoce, as manifestações clínicas mais frequentemente ocorrem na quarta ou quinta década da vida, mas aí já como complicações da doença, causadas por diminuição da irrigação sanguínea ao coração ou outro órgão. De fato nas últimas décadas temos dedicado nossos esforços mais recursos, humanos e financeiros, ao tratamento de pessoas nesta fase, ie, pessoas com infarto, angina ou que necessitam de angioplastia ou cirurgias para revascularização. Este enfoque alem de tardio pois dirige-se a complicações, é também caro e nem sempre eficiente.

>> Descobertas logo no início

Uma alternativa mais promissora é a identificação de pessoas no início do processo atereosclerótico, antes das manifestações clínicas. Isto é possível graças ao emprego de métodos não-invasivos que permitem a identificação de lesões iniciais. Tais métodos incluem índices plasmáticos, com o lípides , marcadores inflamatórios como proteína C de alta sensibilidade ou função endotelial que pode identificar alteração da reatividade vascular as quais precedem o aparecimento de aterosclerose evidente. Por outro lado existem métodos de análise direta dos vasos, como ultrassom, ressonância magnética e tomografia computadorizada de múltiplos detectores. Vários estudos demonstraram que o espessamento da camada íntima da carótida é um marcador eficiente de eventos coronários; este método é muito útil dada sua simplicidade e ampla disseminação entre os vários laboratórios que fazem ecocardiografia. A ressonância magnética de coronárias é altamente sensível para identificar aumentos de espessura da parede arterial, um sinal precoce de aterosclerose que pode preceder diminuições da luz do vaso; no entanto, é uma técnica mais sofisticada, cara e de pouca disponibilidade. Já a tomografia computadorizada é provavelmente o melhor método para o exame direto das coronárias e oferece duas informações de grande relevância: o escore de cálcio e a identificação de lesões obstrutivas; embora o grau de obstrução ainda não seja identificado com a mesma precisão da coronariografia convencional, o valor preditivo negativo é extraordinário. Em estudo recente em que comparamos o valor de métodos não-invasivos comparados à coronariografia convencional para avaliar a extensão da doença coronária em 100 pacientes, documentamos que o escore de cálcio pela tomografia, HDL baixo e a relação triglicérides/HDL aumentada foram os índices que melhor se correlacionaram com a extensão da doença coronária. Assim, podemos concluir que a detecção precoce da aterosclerose por meios não-invasivos é possível.

>> Tratamento

A importância desse fato está em que uma vez identificado o indivíduo com doença aterosclerótica, existem meios eficientes para trata-lo. Assim, vários estudos demonstraram que o tratamento de hipercolesterolemia diminui a progressão da doença, estabiliza placas ateroscleróticas e em alguns casos, pode até induzir regressão das lesões. Por exemplo, o tratamento com estatina evitou a progressão de lesões carotídeas ao longo de dois anos de evolução, enquanto nos indivíduos controles, a doença progrediu. Por outro lado, outros estudos demonstram que a adoção de estilos de vida sadios, influenciam beneficamente a evolução clínica de pessoas em risco de eventos; assim, não fumar, adotar dieta sadia, fazer exercícios , evitar excesso de peso e tomar vinho tinto em pequenas doses contribuem para prolongar a vida e reduzir eventos cardiovasculares. Em relação aos tratamentos clínicos, é fundamental salientar que é mandatório tratar com objetivos específicos, ou seja, reduzir pressão arterial, glicose no sangue e lípides plasmáticos a níveis ideais. Não é suficiente simplesmente tomar remédios; é preciso atingir níveis ideais em todos os parâmetros.

>> Alerta

Alem disso, a identificação precoce da aterosclerose permite a individualização do tratamento. Muitas pessoas tem a doença na ausência dos fatores de risco clássicos; estima-se que eles representam 30-40% dos indivíduos com doença coronária documentada. Mas se lesões são detectadas mesmo em jovens, então aconselhamento adequado e seguimento cuidadoso estão justificados. No outro extremo, indivíduos idosos, que não tenham sinais objetivos de doença arterial, não precisam ser submetidos a regimes restritivos visto que sua constituição individual é tal que o aparecimento da aterosclerose tardia é improvável.

Portanto, o conceito mais recente é que devemos prevenir o aparecimento, progressão e complicações da aterosclerose. E isso depende da detecção precoce da doença.

Fonte:
Protásio Lemos da Luz

Diretor da Divisão de Cardiologia Clinica - INCOR / HC-FMUSP


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