A importância
do reconhecimento precoce da aterosclerose
A aterosclerose
humana tem algumas características fundamentais :
começa muito cedo na vida, seguramente na maioria
dos casos, na adolescência e na ídade adulta
jovem; é sistêmica, comprometendo artérias
como coronárias, carótidas, aorta e membros
inferiores; tem um longo período assintomático,
que pode durar décadas; suas manifestações
clínicas mais comuns são eventos cardiovasculares,
especialmente angina, infarto do miocárdio, morte
súbita, insuficiência cardíaca e acidentes
vasculares cerebrais.
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Lesões aos 15 anos
Vários
estudos de necropsia em adolescentes e adultos jovens que
morreram de morte violenta (acidentes, homicídios,
suicídios) documentaram a presença de lesões
ateroscleróticas em diferentes graus de evolução
em indivíduos entre 15 e 35 anos de idade, inteiramente
assintomáticos. As lesões variavam entre estrias
gordurosas iniciais até placas fibrosas mais avançadas.
Mesmo soldados americanos que haviam sido previamente examinados
e considerados aptos para o serviço militar apresentavam
tais lesões, algumas até com avançados
graus de estenoses coronárias. As placas ocupavam
tanto a aorta como as artérias coronárias
Observou-se também que o grau de comprometimento
dos vasos era diretamente relacionado à presença
de fatores de risco comuns, tais com o hipertensão,
obesidade , exposição a fumo , etc. Apesar
desse início precoce, as manifestações
clínicas mais frequentemente ocorrem na quarta ou
quinta década da vida, mas aí já como
complicações da doença, causadas por
diminuição da irrigação sanguínea
ao coração ou outro órgão. De
fato nas últimas décadas temos dedicado nossos
esforços mais recursos, humanos e financeiros, ao
tratamento de pessoas nesta fase, ie, pessoas com infarto,
angina ou que necessitam de angioplastia ou cirurgias para
revascularização. Este enfoque alem de tardio
pois dirige-se a complicações, é também
caro e nem sempre eficiente.
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Descobertas logo no início
Uma alternativa
mais promissora é a identificação de
pessoas no início do processo atereosclerótico,
antes das manifestações clínicas. Isto
é possível graças ao emprego de métodos
não-invasivos que permitem a identificação
de lesões iniciais. Tais métodos incluem índices
plasmáticos, com o lípides , marcadores inflamatórios
como proteína C de alta sensibilidade ou função
endotelial que pode identificar alteração
da reatividade vascular as quais precedem o aparecimento
de aterosclerose evidente. Por outro lado existem métodos
de análise direta dos vasos, como ultrassom, ressonância
magnética e tomografia computadorizada de múltiplos
detectores. Vários estudos demonstraram que o espessamento
da camada íntima da carótida é um marcador
eficiente de eventos coronários; este método
é muito útil dada sua simplicidade e ampla
disseminação entre os vários laboratórios
que fazem ecocardiografia. A ressonância magnética
de coronárias é altamente sensível
para identificar aumentos de espessura da parede arterial,
um sinal precoce de aterosclerose que pode preceder diminuições
da luz do vaso; no entanto, é uma técnica
mais sofisticada, cara e de pouca disponibilidade. Já
a tomografia computadorizada é provavelmente o melhor
método para o exame direto das coronárias
e oferece duas informações de grande relevância:
o escore de cálcio e a identificação
de lesões obstrutivas; embora o grau de obstrução
ainda não seja identificado com a mesma precisão
da coronariografia convencional, o valor preditivo negativo
é extraordinário. Em estudo recente em que
comparamos o valor de métodos não-invasivos
comparados à coronariografia convencional para avaliar
a extensão da doença coronária em 100
pacientes, documentamos que o escore de cálcio pela
tomografia, HDL baixo e a relação triglicérides/HDL
aumentada foram os índices que melhor se correlacionaram
com a extensão da doença coronária.
Assim, podemos concluir que a detecção precoce
da aterosclerose por meios não-invasivos é
possível.
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Tratamento
A importância
desse fato está em que uma vez identificado o indivíduo
com doença aterosclerótica, existem meios
eficientes para trata-lo. Assim, vários estudos demonstraram
que o tratamento de hipercolesterolemia diminui a progressão
da doença, estabiliza placas ateroscleróticas
e em alguns casos, pode até induzir regressão
das lesões. Por exemplo, o tratamento com estatina
evitou a progressão de lesões carotídeas
ao longo de dois anos de evolução, enquanto
nos indivíduos controles, a doença progrediu.
Por outro lado, outros estudos demonstram que a adoção
de estilos de vida sadios, influenciam beneficamente a evolução
clínica de pessoas em risco de eventos; assim, não
fumar, adotar dieta sadia, fazer exercícios , evitar
excesso de peso e tomar vinho tinto em pequenas doses contribuem
para prolongar a vida e reduzir eventos cardiovasculares.
Em relação aos tratamentos clínicos,
é fundamental salientar que é mandatório
tratar com objetivos específicos, ou seja, reduzir
pressão arterial, glicose no sangue e lípides
plasmáticos a níveis ideais. Não é
suficiente simplesmente tomar remédios; é
preciso atingir níveis ideais em todos os parâmetros.
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Alerta
Alem disso,
a identificação precoce da aterosclerose permite
a individualização do tratamento. Muitas pessoas
tem a doença na ausência dos fatores de risco
clássicos; estima-se que eles representam 30-40%
dos indivíduos com doença coronária
documentada. Mas se lesões são detectadas
mesmo em jovens, então aconselhamento adequado e
seguimento cuidadoso estão justificados. No outro
extremo, indivíduos idosos, que não tenham
sinais objetivos de doença arterial, não precisam
ser submetidos a regimes restritivos visto que sua constituição
individual é tal que o aparecimento da aterosclerose
tardia é improvável.
Portanto, o
conceito mais recente é que devemos prevenir o aparecimento,
progressão e complicações da aterosclerose.
E isso depende da detecção precoce da doença.
Fonte:
Protásio Lemos da Luz
Diretor da Divisão de Cardiologia Clinica - INCOR
/ HC-FMUSP