Difusão
Uma técnica
da Ressonância Magnética Nuclear que permite
caracterizar alteracões na motilidade das moléculas
de água no interstício do parênquima
cerebral.
Introdução
Apesar da sua reconhecida
sensibilidade na investigação de patologias
intra-cranianas, a Ressonância Magnética apresenta
relativa inespecificidade na caracterização
de determinadas lesões cerebrais. Por esta razão
justifica-se o constante desenvolvimento de diferentes técnicas
de imagem funcional que, utilizando diversos parâmetros
fisiológicos, oferecem grande potencial na discriminação
de diferentes patologias cerebrais. O estudo de difusão
por Ressonância Magnética encontra-se entre
estas novas modalidades.
Difusão
é o termo utilizado para descrever o movimento aleatório
das moléculas de água em estado líquido.
Esta motilidade é resultado da dissipação
da energia térmica na forma de energia cinética.
O fenômeno de difusão existe nos diversos tecidos
humanos, incluindo o sistema nervoso. A técnica de
difusão por Ressonânica Magnética permite
determinar a magnitude e direção tridimensional
do movimento das moléculas de água que se
localizam no insterstício do parênquima cerebral.
A intensidade
de difusão do parênquima cerebral normal varia
conforme a microestrutura da região estudada, tendo
sido observada acentuada diferença de difusão
entre substncia branca e cinzenta. Na substância branca
cerebral, a difusão das moléculas de água
ocorre preferencialmente ao longo do eixo mais longo dos
axônios (paralelo), uma vez que o movimento perpendicular
à direção dos mesmos é limitado
pela bainha de mielina e membranas celulares Fig1.
A difusão
pode ser anormal em qualquer patologia que determine alteração
da arquitetura intersticial. Em condições
normais, o espaço intersticial é relativamente
amplo, proporcionando fácil motilidade das moléculas
de água. Patologias que determinam redução
ou aumento deste espaço determinarão anormalidades
na direção e velocidade de difusão
molecular da água (anisotropia). A anisotropia é
quantificada quantificada através do coeficiente
aparente de difusão (Apparent Diffusion Coefficient
-ADC).
Aplicações
clínicas
Acidentes
vasculares cerebrais isquêmicos
A aplicação
clínica mais importante e também mais intensivamente
estudada da difusão por Ressonância Magnética
tem sido na avaliação da doença isquêmica
cerebral. A difusão por Ressonância Magnética
é o método mais sensível na detecção
de isquemia aguda. Modelos de isquemia em animais têm
demonstrado redução do ADC em apenas dois
minutos após oclusão vascular. Embora o mecanismo
responsável por esta alteração seja
multifatorial, acredita-se que este fenômeno reflita
primariamente o movimento de água do compartimento
extracelular para o intracelular (fase inicial do edema
citotóxico).
O estudo de
difusão por Ressonância Magnética tem
sérias implicações no momento atual,
onde se observa uma tendência à rápida
intervenção em pacientes com acidentes vasculare
isquêmicos. O exame de difusão permite avaliaçáo
quantitativa da zona de isquemia, avaliação
precoce do prognóstico, triagem para protocolos de
tratamento à base de trombólise, e controle
evolutivo da área de infarto.
A Difusao
por RM tem ainda grande utilidade na distinção
entre lesões isquêmicas agudas e crônicas.
Em determinadas situacoes tais como em pacientes com leucoencefalopatia
isquêmica crônica e anemia falciforme em crianças,
a analise das imagens convencionais isoladamente pode nao
ser suficiente para permitir a diferenciacao entre lesoes
antigas e recentes. Enquanto que na lesão antiga
a área de infarto já se reorganizou após
o insulto, nas lesões recentes a anisotropia estará
significativamente alterada.
O método
de difusão permite ainda diferenciar entre lesões
de natureza isquêmica e outras condições
de etiologias diversas que apresentam padrões de
imagem estrutural semelhantes, tais como se observa em alguns
tumores e na forma pseudotumoral da esclerose múltipla.
Tumores
A técnica de
difusão por RM consiste em um valioso método
auxiliar na caracterização de tumores do cérebro
e medula espinhal, e suas complicações. Vários
estudos têm demonstrado o potencial do exame de difusão
na distinção entre tumores sólidos,
alterações císticas, edema vasogênico,
e substância branca normal.
Apesar dos
esforços contínuos, ainda não foi possível
estabelecer padrões de difusibilidade específicos
para diferentes tumores cerebrais (assinatura característica
de acordo com o tipo histológico do tumor). Entretanto,
a difusão por RM permite caracterizar tumores de
alta celularidade ou com espaço extracelular reduzido,
tais como se observa nos tumores epidermóides e linfomas.
A Difusão por Ressonância Magnética
permite clara distinção entre lesões
extra-axiais císticas (cisto aracnóide, epidermóide).
Mais recentemente,
estudos de difusão têm sido utilizados na avaliação
pós- cirúrgica com o propósito de diferenciar
lesões isquêmicas agudas, edema, ou alterações
relacionadas ao ato cirúrgico, permitindo avaliação
mais adequada de deficits neurológicos que se manifestam
após a craniotomia.
Dentre as
aplicações clínicas ainda em investigação,
estudos recentes têm demonstrado importante potencial
da Difusão por Ressonância Magnética
como método diferencial entre lesões malignas
e benignas em lesões compressivas vertebrais.
Epilepsia
A utilização
de Difusão por Ressonância Magnética
em pacientes com epilepsia tem sido relativamente limitada.
Embora pareça claro que a Difusão por Ressonância
Magnética permita melhor caracterização
do substrato patológico nas epilepsias lesionais
(e.g.:tumores), ainda não existem dados objetivos
relacionados ao estudo de pacientes no estado interictal.
Vários centros têm relatado aumento focal da
difusão logo após as crises.
Em pacientes
com eclampsia alterações transitórias
são frequentemente observadas na substância
branca posterior, provavelmente secundárias a edema
vasogênico. Em pacientes com epilepsia temporal, estudos
de difusão tem demonstrado aumento do coeficiente
aparente de difusão associado à perda neuronal,
gliose, e expansão do espaço extracelular
hipocampal, achados estes encontrados em esclerose temporal
medial.
Doenças
da substância branca
A Difusão
por Ressonância Magnética auxilia no diagnóstico
e caracterização de uma variedade de patologias
que acometem a substância branca. A capacidade de
diferenciar edema vasogênico de citotóxico
ajuda a estabelecer distinção entre os vários
tipos de doenças desmielinizantes e dismielinizantes.
Desta forma, na doença de Pelizaeus-Merzbacher, a
substância branca "dismielinizada" apresenta
elevada intensidade de sinal à sequência ponderada
em T2, enquanto a análise de difusão revela
elevada anisotropia. Por outro lado, apesar do alto sinal
em T2, o estudo de difusão na doença de Krabbe
(doença desmielinizante) revela perda de anisotropia.
Redução da anisotropia também foi observada
em outra patologia desmielinizante, a doença de Alexander.
Os estudos de difusão em esclerose múltipla
tem se limitado à fornecer melhor caracterização
das placas de desmielinização.
Doenças
infecciosas
A interpretação
das imagens de difusão nos processos infecciosos
requer atenção devido à frequente complicação
com infartos arteriais ou venosos. Determinados processos
infecciosos, tais como a encefalite de Creutfeld-Jakob apresentam
difusão reduzida. De maneira similar, redução
da difusão tem sido observada em abscessos cerebrais,
granulomas e empiemas subdurais. Este padrão de difusão
restrita pode estar associado à alterações
relacionadas à viscosidade, aumento local de proteínas,
isquemia associada e outros fatores ainda não determinados.
Técnicas
em desenvolvimento com potencial aplicabilidade clínica
O grau de anisotropia
das fibras mielinizadas da substância branca está
relacionado a uma série de fatores, dentre eles:
integridade das membranas axonais, quantidade e integridade
da mielina axonal, organização da orientação
espacial dos axônios, número e tamanho dos
axônios. Em particular, a anisotropia se correlaciona
com o estágio de mielinização. A análise
da difusão em relação à orientação
das fibras da substância branca é feita através
da imagem do tensor de difusão (Diffusion Tensor
Imaging - DTI).
A utilização
do DTI permite o mapeamento das fibras de associação,
projeção e vias comissurais, consistindo,
portanto, de um importante método na caracterização
da conectividade cerebral. Esta técnica tem sido
usada primordialmente no estudo de indivíduos normais.
Entretanto, a caracterização estrutural dos
tratos da substância branca tem implicações
fundamentais para compreensão de diversos distúrbios
neurológicos lesionais primários ou secundários
tais como tem sido observados em pacientes com acidente
vascular cerebral, esclerose múltipla, esclerose
lateral amiotrófica, traumatismo craniano e raquimedular.
A capacidade
de identificar anormalidades microestruturais da substância
branca tem despertado grande interesse, devido a possibilidade
de se identificar os substratos patológicos em uma
série de condições clínicas
cujos achados de imagem estrutural são considerados
normais (e.g.: distúrbios cognitivos sem explicacao
aparente, autismo, epilepsias sem lesão estrutural
evidente, atrasos de desenvolvimento psico-motor). Apesar
de incipiente, o uso de difusão neste grupo de patologias
é bastante promissor. Tal otimismo pode ser justificado
pelo achado de alteração da anisotropia da
substância branca da região temporo-parietal
em indivíduos com dislexia, cujos exames convencionais
por ressonância foram insuficientes em demonstrar
qualquer anormalidade estrutural.
Sumário
As técnicas
de difusão por RM consistem em um nova modalidade
de estudo que permitem caracterizar alteracões na
motilidade das moléculas de água no interstício
do parênquima cerebral. Embora este método
tenha sido mais enfatizado no estudo das doenças
cerebrais vasculares isquêmicas, a difusão
fornece importante "insight" fisiológico,
trazendo importante contribuição para melhor
diagnosticar e caracterizar uma extensa gama de patologias
que acometem o sistema nervoso.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
|